Tia Milena & Ana Paula

Reais demais para um Reality Show.

Acabou nesta última terça feira, 21 de abril, o Big Brother Brasil 2026. E, em vários aspectos, o programa produziu um ponto de inflexão na história da televisão brasileira contemporânea. Em um contexto de produção fragmentada, voltada cada vez mais à farsa da construção montada das redes (escrevi sobre isso aqui ano passado), o programa foi praticamente obrigado* a entregar narrativas de totalidade. Histórias impressionante e surpreendentemente reais.

É fácil dizer como tudo começou, mas dá até um nó pensar em como terminou. Minutos antes da edição do antepenúltimo episódio, Ana Paula Renault recebeu a notícia da morte de seu pai. O programa foi ao ar normalmente e, em que pese a morbidez capitalista tardia de toda a situação absurda, a quebra de protocolos daí pra frente foi da magnitude do real – coisa que já não esperamos, infelizmente, nem de um reality show.

O programa captou ao vivo o momento em que Ana Paula caiu de joelhos no chão e, em desespero, deu a notícia para Tia Milena, sua maior amiga no jogo: “Tia Milena, meu pai morreu”. Ana repetiu insistentemente que “nada tá fazendo sentido”, enquanto Milena gesticulava, sem palavras. A interação resumiu o momento, e boa parte do programa: a realidade invadiu demais o show. Não dava pra saber o que fazer, ou falar.

Isso tudo me remete à primeira grande dimensão de novidade aberta pelo programa este ano: Milena Moreira Lages, a (agora famosa) Tia Milena. Totalmente sem filtro (fruto, muito provavelmente, de um quadro neuroatípico real – e muito específico, diga-se**), Milena “rasgou o cenário”; descobriu como a produção funciona, lembrando o tempo todo dos bastidores (e soltando muitas gafes sobre estes); desbloqueou ângulos de câmera; aprontou com todos os adversários com xingamentos e ações quase infantis (mas que os levaram ao desespero); se mostrou de todos os lados e em todos os aspectos, na maior parte das vezes, esquecendo-se das câmeras – revelando, com isso tudo, uma autenticidade que deixou as pessoas viciadas em episódios diários só de “Tia Milena”, o que só demonstra o quão desesperados todos estamos por descobrir pessoas e experiências efetivamente reais.

Apesar de também ter tido sempre aquela famosa “visão do jogo” que é cobrada de todo participante de BBB, reagiu a tudo como se fosse uma grande brincadeira. O que, no final, é a mais pura verdade. A narrativa geral que o próprio programa tentou atribuir à Milena foi a do “desabrochar”. Ela teria entrado despreparada, cabisbaixa e tímida, para se converter em alguém mais assertivo ao final do programa. É evidente que esse percurso existiu. Mas é preciso dizer que, desde a volta do primeiro paredão, algo ou alguém (meu chute é: Ana Paula e a psicóloga do programa) deram guarida para Milena direcionar suas feras.

A falta de filtro da jovem poderia ter resultado somente naquilo que vimos nos primeiros dias: na dificuldade profunda de controlar emoções, levando-a ao desespero e à desistência. Depois do primeiro paredão, ela parece ter se condicionado a direcionar o descontrole, voltando-o para seus adversários, prontos para julgar qualquer atitude sua como inferior ou desconfortável: de sua mania de limpar a casa o tempo todo à sua suposta “falta de educação”.

Milena seguiu sem filtros. Entregou o que as redes precisam (os memes e recortes da economia da atenção, no “sentido “litoral”), mas seguiu sendo uma peça rara pelo conjunto da obra. Até em sua última entrevista dada recentemente, para a Ana Maria Braga, conseguiu quebrar o protocolo: levantou-se, revelando o cenário do programa, elogiou a “equipe do figurino” (que não é simplesmente a “produção”, como ela corrigiu, enaltecendo assim toda a equipe), fez “publi” sem fazer “publi”, entre outras coisas. Milena não sabe seguir roteiros. Não daria para escrevê-la, se fosse necessário. É real demais para um reality.

E precisou de muito suporte para se manter assim por 100 dias. É aí que eu toco na segunda grande dimensão de novidade do BBB 26: Ana Paula Renault, a campeã, e “dona da narrativa”. Além de servir de suporte para Tia Milena durante (quase) todo o jogo, Ana Paula também rompeu os protocolos, ainda que de forma muito mais estratégica e preparada. Notando a habilidade de um elenco forte, cheio de figuras de personalidade e carisma, captou desde cedo que havia um afã, por parte de muitos ali, em apelar para o “jogo externo”: suas pautas fora da casa, sua vida pessoal, trajetórias passadas, etc. Adotou, a partir disso, dois lemas que executou à exaustão: “irritar quem me irrita” e “dar corda para meus adversários se enforcarem”. Funcionou.

Preparadíssima, sabendo exatamente o tipo de enredo que é destacado na edição e dominando a forma como os assuntos poderiam circular em torno dela, Ana Paula usou suas habilidades midiáticas para apelidar rivais, sempre fazer retrospectivas dos acontecimentos de dentro da casa, e se manter como assunto e alvo. Focou na narrativa de totalidade, e conseguiu, com isso, levar o público consigo – um feito enorme para os dias atuais***. Mesmo quando a história de seu pai (usada covardemente por adversários) ameaçou invadir o jogo antes de sua fatídica despedida já no final do programa, Ana relutou ao máximo para não se apoiar no desafio pessoal que a situação lhe conferia. Não usou isso como pauta ou narrativa para se vitimizar, e só deixou a coisa “invadir” a esfera do programa quando foi inevitável: ao descobrir sobre sua morte, 2 dias antes da final.

O que Ana recebeu em troca da estratégia de deixar a vida “de fora” do lado de fora foi desproporcional e covarde: além de menções à situação de saúde do pai, argumentos de que sua “militância” externa não casaria com suas atitudes dentro da casa. Esse foi o mote usado por adversários como Matheus e Babu, por exemplo, desesperados para construir a ideia de que uma “riquinha” que fala de justiça social não poderia se aproximar de uma trabalhadora humilde como Tia Milena, a não ser pelo interesse em ter alguém para servi-la – sendo que o que vimos tanto Ana Paula sendo “escada” e suporte para Milena, em uma relação que foi muito mútua e equilibrada.

A covardia do “jogo externo” e a reação magistral de Ana Paula Renault em relação a isso revelaram que, em muitos sentidos, o BBB 26 foi o BBB do “fim das pautas”. Não que não precisemos, como sociedade, abordar e, sobretudo, resolver, diversas das questões que o programa expõe. O ponto é que o programa deve expô-las involuntariamente, ao tentar ser o mais real possível no retrato das relações sociais. Quando se “usa” (em TV, ou qualquer outro contexto tipicamente capitalista) as surradas “pautas” como argumentos “de jogo”, isso se torna apenas uma instrumentalização – que já vem sendo feita no programa a muitos anos, isso é certo, mas que agora já passa a soar ridícula.

Ana obrigou o jogo a ser jogado dentro das quatro linhas do programa, com todas as suas limitações. E, por mais que tanta gente ainda bata o pé para reafirmar o lugar do grande capital (e do espetáculo) no avanço de “pautas”, é preciso sempre lembrar que a TV (e, hoje, suas manifestações fragmentadas) é um espaço privilegiado do capital, que representa um país que precisa não necessariamente ser transformado (ao menos não para as classes dominantes, que dirigem o espetáculo), mas representado.

Mesmo que tanta gente ainda insista na falsidade pós moderna, já passou da hora de admitirmos que a representação não constrói a realidade material. Já faz pelo menos uma década que a Rede Globo, por exemplo, dá protagonismo de todos os tipos à minorias políticas: LGBTQIA+, pessoas negras, mulheres, apresentadores/atores e demais agentes de regiões “fora do eixo”, etc. Não se viu, dentre essas populações, melhorias materiais advindas deste palco. Simplesmente porque isso não ocorre (e nunca ocorrerá) fora do campo da política. Nós sabemos que, cá entre nós, o último projeto político que produziu transformações para estas minorias foi radicalmente abortado no Brasil em 2016. Nesta última década vivemos uma verdadeira regressão de 50 anos em 10.

É, curiosamente, este o mesmo período que separa a expulsão de Ana Paula Renault de um BBB que ela deveria ter ganho, para o BBB que ela efetivamente ganhou. Seria um sinal? Como eu não acredito em mágica, nem na falsa premissa de que o discurso constrói o real, eu tenho certeza que não. Mas me acalento em saber que a ficha de que entretenimento não é o campo de luta privilegiado para essas pautas está finalmente caindo.

Graças, em parte, à imensidão de Tia Milena e Ana Paula Renault. Ao se mostrarem complexas e indomáveis demais, desafiaram a própria ideia da “realidade” que deveria ser representada por um reality. E isso já fez muito mais, ironicamente, até pelas pautas que elas rejeitaram abordar no programa****, do que os mil discursos “engajados” que vimos nas últimas edições – totalmente sem lastro e lançados ao léu só para serem utilizados como capital social.

*A edição do programa demorou para pegar no tranco, talvez já tão acostumada com os fragmentos (e, às vezes, em tirar leite de pedra), entendendo que haviam histórias de verdade para serem contadas.

**Todos sabemos que não é de bom tom sair diagnosticando as pessoas remotamente e de forma irresponsável. Mas o quadro de Milena é bem típico, e tenho a “bênção” do meu próprio quadro (já diagnosticado) para observar isso.

***É claro que isso esbarrou em diversos momentos (especialmente quando ela “errou” no jogo) em uma dinâmica viciada do programa, que ainda precisa ser corrigida: a de que os favoritismos se estabelecem muito cedo e que, depois das primeiras semanas, a situação praticamente se assenta em torno de quem será o grande campeão. Atribuo mais isso ao fluxo entre programa-redes-torcidas, do que aos participantes e às dinâmicas estruturadas entre eles dentro do programa.

****Quase cancelada o programa inteiro pelos mais “progressistas” daqui de fora por ser “bolsonarista”, Tia Milena já anunciou que vai se engajar com a adoção de crianças. Sendo ela própria, fruto de um lar de adoção, a medida me parece super coerente. E, como tudo abordado na mídia para todo mundo ver, liberal: são ações paliativas de caridade/solidariedade que não mudam a estrutura, apesar de produzirem bem estar social para alguns. Isso a própria TV sempre fez muito bem, o que só demonstra a fragilidade do nosso sistema, e a inconsistência do uso de pautas políticas como capital social. Tia Milena já cravou sua imortalidade na história do entretenimento brasileiro, independentemente do quê fará a partir de agora da vida, e de suas contas comerciais de redes sociais.