A mágica canarinho (e um método inconsequente)

Quinta feira começa a Copa do Mundo. E Vinicius inaugura a fase "Silêncio no Estádio". Divirtam-se com algumas previsões.

Endrick, o Pelé negro

A Copa do Mundo começa dia 11 de junho, essa quinta. Não falarei mais de música.

(É mentira, vocês sabem. Mas as declarações a seguir são totalmente verdadeiras)

Quanto mais o tempo passa mais assumo o lema do meu velho pai: “o time que eu torço só joga de 4 em 4 anos e de verde-amarelo” (agora de 3 em 3, porque também acompanho as Copas femininas). Só gosto de futebol na Copa do Mundo. Nas Copas, o futebol é um esporte muito diferente daquele dos clubes, de temporada após temporada.

Copas são marcos de épocas, que me fazem deixar de lado os horrores da FIFA e a absurda dominação europeia. No campo, pelo menos, ela é relativa; das 22 Copas a América Latina ganhou 10, com apenas 3 times. A Europa ganhou 12 com 5 times, e tendo sempre mais equipes em todas as competições. Só em Copas o Brasil é a força hegemônica incontestável. Só em uma Copa Marrocos pode despachar a Espanha nas quartas de final.

Copas são mágicas. E foi conciliando os fatores místicos com alguns dados objetivos que eu cheguei a uma metodologia preditiva para Copas, que aperfeiçoei desde 2006 até chegar a um espantoso nível de acerto em 2022. Infelizmente os acertos nas previsões de 2006 até 2022 não estão todos registrados, mas os palpites de ’22, quase todos corretos, estão publicados neste texto aqui. Na época, ninguém deu importância para o humilde textinho, mas nele eu previ corretamente o título da Argentina e a eliminação da Espanha para Marrocos, dentre outras coisas que, quando defendi, eram consideradas bem improváveis.

Agora, “qual é o método?”, meu leitor pode perguntar. Não revelarei. Basta vocês saberem que ele mistura dados objetivos (em relação à história das copas e às condições atuais dos times) com dados subjetivos. Porque não adianta ficar botando máquinas para calcular os resultados ou tentando prever as coisas na base dos achismos momentâneos.

Em Copas do Mundo, entram em campo três elementos: os times, suas camisas (a história) e o improvável (a mágica).

Ignorando os dois últimos elementos e pensando mais nas situações objetivas dos times, muita gente tem cravado as favoritas: França, Espanha, Inglaterra … até Portugal andam colocando na frente de seleções tradicionais como Brasil e Alemanha. A questão é que todos os campeões de Copas precisam ter os três elementos. No mínimo dois deles, bem cravados.

Vimos isso em ’22. Um time ótimo, mas cheio de dúvidas, que se apoiava numa camisa relativamente pesada, e em muitos elementos do improvável a seu favor: coincidências históricas assustadoras com ’86, meio campistas que só deram certo naqueles 7 jogos da copa, um goleiro psicopata que virou uma muralha nos pênaltis e evitou a perda do caneco, literalmente, no último minuto da Final, um craque que decidiu não errar nada quando seu time mais precisou, etc – aqui cabe um enorme etecetera, que inclui a incrível Abuela LaLaLaLa. Tudo estava do lado da Argentina, em especial na camisa e no improvável.

Aí, meus amigos, é que eu lhes digo. Quem está mais próximo de unir os elementos desta vez, sustentada por um absurdo número de coincidências e superstições, é a seleção brasileira. E é exatamente isso mesmo que eu estou dizendo. A minha mais ousada previsão: o Brasil leva o Hexa em 2026. Tem muita gente sem saber como ancorar esse sentimento, e dizendo o mesmo que eu: tem um “cheirinho”. Tem alguma coisa no ar. Eu poderia listar aqui as coincidências supersticiosas que sustentam esse sentimento (como o jejum de 24 anos, a coincidência das sedes, como com as de ’70 e ’94, e por aí vai), mas é muita coisa, e nem cabe aqui.

O ponto é que, por todos os critérios objetivos, é meio improvável mesmo acreditar no Hexa*. Estamos vindo de um ciclo bagunçadíssimo, sem um time exatamente formado a dias da competição começar. O maior craque de toda a geração viajou pros EUA para ser uma espécie de Fuleco melhor remunerado e pra inaugurar a modalidade “Copa do Mundo em Home Office” jogando CS (sim, tô falando do Neymar). Não temos volantes e zagueiros confiáveis e o ataque é uma incógnita, apesar de termos no banco uma espécie de Pelé negro (sim, o Endrick).

Objetivamente, é verdade que o Hexa parece bem distante. Mas é aí que tá. Em nenhuma das 5 copas que ganhamos (com exceção, talvez, de ’62), chegamos como favoritos ao olhar do nosso povo e, principalmente, de nossa imprensa. Nem em ’58, Copa que inspirou o texto seminal de Nelson Rodrigues sobre o “Complexo de Vira-Latas”. Nem em ’70, onde apresentamos em campo aquele que é considerado o melhor time da história das Copas por muita gente (eu incluso). ’94 éramos perseguidos pela “Era Dunga”. ’02 era a “confusão do Scolari”, e por aí vai. Sempre chegamos desacreditados quando conquistamos o mundo. Será assim em ’26.

Time nós não temos (mas vamos formar ao longo da competição, confio em Ancelotti para isso). Camisa temos a mais pesada de todas. E o improvável, bom, ele está completamente do nosso lado.

(Só não me peçam pra elaborar mais agora, senão esse texto não acaba nunca)

Endrick, um dos agentes da “mágica”. Nasceu pra ser icônico

Agora, às previsões mais “normais”.

  • É preciso lembrar que toda Copa recente, sistematicamente pelo menos desde ’94, tem uma “zebra” ou “surpresa” dentre as não tradicionais, por assim dizer, chegando bem longe (semifinais, e até finais, no caso de Croácia, ’18 e Espanha ’10). Quem será a “zebra” da vez? Não é nem de perto o que eu queria, mas acho que serão os Estados Unidos. Tem gente apostando no México (acho difícil), e diversas outras seleções podem aprontar (falo abaixo das “improbabilidades”). Mas, pelo grupo inicial, e também pelo fato desses FDP serem competitivos do jeito que são, acho que podem surpreender demais. Se eles são hegemônicos no feminino, devem ainda muito no “soccer” masculino.
  • A Alemanha fará a campanha mais surpreendente. Foi vítima da “maldição da campeã”, caindo na 1ª fase nas duas últimas Copas, mas acho que já deu. Chega desacreditada e no meio de uma mudança geracional. Parece muito com o Brasil nesses dois aspectos. E, assim, não dá nunca pra desacreditar esses dois times. Alemanha vai longe. Quiçá, chega até a semi.
  • A Argentina não deverá cair na “maldição da campeã”, mas fará uma Copa desastrosa, caindo nas oitavas ou antes. Na verdade essa é a minha previsão mais frágil, porque acho a Argentina sempre muito 8 ou 80. Ou se estrepa cedo ou chega na final. Aposto mais na 1ª opção desta vez. Até porque, eu não sei se vocês sabem, mas a Abuelita morreu esse ano. Isso praticamente sela qualquer chance que o time poderia ter.
  • Em qual planeta vivem as pessoas que estão cravando Portugal como favorita? Claro que eles estão com um grande time, e que têm lá sua história (um 3º lugar em ’66, com o maior craque de sua história – o Eusébio, não o Cristiano –, e um 4º lugar em 2006). Mas, assim, nós estamos falando de uma seleção que perdeu a Euro em casa para a Grécia em 2004. Repito: Portugal perdeu uma Euro em casa para a Grécia em 2004. Para a Grécia. Calculem. Não passa das quartas.
  • A França já morreu. Por trás do timaço, acho que bateu no teto. Se chegasse à terceira final consecutiva igualaria o recorde da única seleção que fez isso (a nossa: ’94, ’98, ’02). Será que esse escrete francês é assim tão assustador? Acho que não mais.
  • A Espanha pode realmente chegar longe? Pior é que acho que sim. Essa é a projeção consensual mais forte que vejo em tempos. Mas é aquela: ou chega na final ou cai bem antes para um time ainda menos tradicional (não se esqueçam, nunca, de 2022). Acho que chega.
  • Copas são feitas de improbabilidades. Além da “zebra oficial”, que poderá ser uma semifinalista, provavelmente teremos surpresas interessantíssimas. É a maior copa da história, com 48 times, e fica praticamente impossível não conceber várias loucuras. A Tchéquia pode ser surpresa, baixando o espírito da “Checoslováquia perdida”. Acho que aprontam. Outra é a Bósnia (responsável pela ausência da Itália na Copa, pela 3ª vez), fruto da dissolução agressiva da Iugoslávia. É “irmã” da Croácia, que agora já representa uma grande força nas Copas. Será que segue esse caminho? A Noruega, uma das candidatas a sensação da Copa, não deve fazer grandes bostas. Tá chegando com alguma pompa e isso, pra seleções “de fora” do esquema, nunca corresponde. Pode surpreender sim, porque o time é bom. Mas não boto minha mão no fogo por isso. A maior parte das estreantes só está lá porque é uma copa de 48 times. Não devem nem passar da 1ª fase: Curação, Cabo Verde, Jordânia, Uzbequistão. Também não passam: Catar, Arábia Saudita, Iraque. Podem surpreender: Senegal, Costa do Marfim, Turquia.

Deu. Se vocês chegaram até aqui, segue minha última simulação depois dos amistosos, e poucas horas antes de México x África do Sul. É evidente que meu método funciona muito melhor ao final da 1ª fase. Ele é assertivo para as “linhas gerais” preditivas, mas pode sofrer numa Copa maior. Neste caso, com 48 times, é praticamente impossível cravar todas as chaves eliminatórias pelo nível de imprevisibilidade da Fase de Grupos – eu não sei nem se Brasil termina em 1º do grupo, por exemplo. Talvez eu volte aqui antes da 2ª fase pra ver o quanto eu acertei e errei. Boa sorte pra nós, Brasil. Hexa neles.

* Sobre isso, pra terminar mesmo, faço minhas as palavras do Nelson Rodrigues:

“Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, ‘não’. Mas eis a verdade: 

— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.”

Poderíamos adaptar para: fala-se num Lamine Yamal. Eu contra-argumento com um Endrick, um Rayan, um Luiz Henrique, um Vini Jr.

Venham, gringos!