
Para chegar até o epicentro da noite, o segundo dia de um dos maiores festivais de metal da América Latina ofereceu momentos tão grandiosos quanto a bateria de Aquiles Priester. O primeiro deles, logo na entrada, passando pelo espaço do Amplifica e vendo jovens estusiasmados executando “Future World” sem medo do amanhã — foi um bom combustível que tirou a atenção das camisetas de bandas que eram vendidas a R$200,00.
A ideia era ficar entre os palcos Hot e Ice (que no fim foram apenas hot mesmo devido ao calor absurdo) e por isso, antes de acompanhar a parte final da apresentação do Project 46, era preciso passar pelo Sun Stage e ser impactado positivamente pelo metal de pirata do Visions of Atlantis. Meio-dia e todo mundo desejando estar em alto-mar para amenizar a sensação de trinta e cinco graus no Memorial da América Latina.

Quando o Primal Fear começou, já do outro lado do evento, os olhares de admiração não ficaram apenas no timbre forever young de Ralf Scheepers. A nova guitarrista Thalia Bellazecca dominou o set do grupo alemão, dividindo as execuções complexas das canções de power com sorrisos enormes e um notório prazer de estar performando entre os dinossauros. Magnetismo imediato que fez o sol não parecer tão efervescente quanto estava e ajudou o público a chegar vivo até a apresentação energética do Nevermore.

Outra mulher que transpirou idolatria foi Elize Ryd, que, sinceramente, não precisa da companhia dos outros dois vocalistas do Amaranthe. Ela é a alma do excelente grupo sueco e foi devidamente ovacionada pelo público brasileiro que não sabia se derretia por ela ou pela temperatura ambiente.

Corta para o lado esquerdo com a formação original do Winger derramando trilhas sonoras do Hard Rock e o domínio técnico absoluto do baterista Rod Morgenstein, solando com notas precisas nos tambores aos 73 anos de idade. Os californianos foram ouvidos por “Miles Away” dali, tal qual um de seus hits.

De volta ao lado direito, Smith/Kotzen levaram as guitarras ao ápice com as excelentes músicas do segundo disco do projeto. Outra vez, quem resolveu brilhar foi outra mulher, a baixista Julia Lage. Brasileira como o baterista Bruno Valverde — que veríamos fechando a noite com o Angra depois — ela foi o ponto de energia e descontração ao lado dos já consagrados Adrian Smith e Richie Kotzen. O final com “Wasted Years” abasteceu os fãs que se preparavam para o espetáculo proporcionado pelo Within Temptation na sequência.
Sharon den Adel e sua turma não decepcionaram e entregaram mais um registro épico de uma das maiores bandas de metal sinfônico da história. Foi emocionante ouvir novamente “The Howling”, ainda mais pelo contexto atual de um certo lado da política, além de “The Heart of Everything” e “Forsaken”. Mesmo sem tocar a minha favorita da vida, a imortal “What Have You Done?”, a experiência foi digna da história de um grupo longevo, poderoso e que soube se reinventar indo além das sinfonias, incorporando elementos eletrônicos em trabalhos recentes.

Após a despedida da rainha suprema em seu vestido branco, duas baterias estavam preparadas para a reunião improvável. Tama e Mapex, duas histórias escrevendo uma terceira, que só não foi mais histórica pela ausência do maestro.
Quem começou o ritmo foi Bruno Valverde, num “Nothing To Say” com a então formação atual que apresentou Alírio Neto realizando seu sonho de finalmente ser mais um integrante do tumultuado Angraverso.
Depois de emendar “Angels Cry”, Fabio Lione fez sua aparição tocando um pouco do seu legado e deixando muito claro a falta que vai fazer. Os 14 anos do mago à frente da banda brasileira certamente serão lembrados com mais carinho após a sua saída, afinal, seu timbre peculiar nunca foi visto sendo emulado por outras vozes. Quem torcia o nariz para o italiano precisou se render ao gigantismo que é “Tide of Changes” e “Vida Seca”, registros do Cycles of Pain. Ele também cantou “Lisbon”, ainda que “Gentle Change” fosse a favorita para a fase André.
Ainda deu tempo para Alírio regressar para tocar “Wuthering Heights” e “Carolina IV” antes do ato mais esperado do festival. Assistir Aquiles Priester aparecer atrás de sua icônica bateria ao mesmo tempo que Kiko, Edu, Felipe e Rafael é algo inesquecível. A formação Nova Era foi, para muitos, a inclusão do Angra em suas vidas. Uma parte delicada de um grupo que havia perdido baterista, baixista e vocalista e precisou renascer. Ninguém acreditava que esse renascimento seria possível da mesma forma que ninguém acreditava que o momento de celebrar esse renascimento seria possível.

Esse sentimento é até maior do que as execuções de “Nova Era”, “Millenium Sun”, “Spread Your Fire” ou “Rebirth”. Olhar para eles ali, revisitando um passado que significa o presente de cada um, não tem preço. É aquele abraço de um antigo amigo que errou com a gente e não teve vergonha de admitir o deslize. A partir disso, as músicas passam a ter um novo significado, ficam mais fortes, pois carregam o sangue daqueles que a criaram e daqueles que estiveram ali para ver. A banda não tocou sozinha, ela foi levada pelo público que cresceu com as canções e pode finalmente senti-las como são: imperfeitas, doloridas e épicas à sua maneira.
“Silence and Distance” apenas com a voz de André mostrou o quanto essa faixa representa a banda em sua totalidade. Alírio e Edu se uniram para interpretá-la do meio pra frente, mas seu tamanho, mesmo anos depois, ainda impressiona. Da mesma forma que “Cycles of Pain” vai impressionar e talvez alguma nova música composta com Alírio possa ter esse impacto atemporal.
O “Carry On” que trouxe todos ao palco tem a mensagem simples e até óbvia de continuar em frente. Porém, mais do que isso, é seguir em frente sem fechar as portas para o que se passou. É seguir em frente sem limitar a relação com quem esteve com você, que seja possível voltar e celebrar. O presente pode ter o passado puro junto, passando por cima da terrível tarefa de convivência, de divergência criativa, de protagonismo individual.
O Bangers Open Air de 2026 mostrou que uma banda brasileira tem história para ser a principal razão de muitas pessoas ouvirem metal. Seus integrantes foram capazes de unir muitas gerações e criar hinos que foram além da possibilidade de continuarem juntos. Ninguém precisa estar ligado pra sempre, mas para dividir um palco e reviver a história, não deveriam existir muros.
Será que o mesmo vale para o Holy Land?
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