
Vocês já devem ter visto recentemente a repercussão de uma descoberta jornalística bombástica. A empresa Chaotic Good, especializada em “campanhas narrativas” com “conteúdo gerado por usuários”, trabalhou ostensivamente na divulgação do trabalho solo de Cameron Winter e na promoção do último disco da banda Geese. E não só. A firma foi contratada por diversos artistas recentemente incensados pela crítica especializada (eu incluso), como Oklou, Mk.gee, Jane Remover e Dijon.
Até aí tudo bem, certo? Não há nada de errado em artistas (mesmo independentes) contratarem empresas de marketing digital. A questão são os métodos da empresa, detalhados por seus próprios fundadores nessa entrevista recente – que acabou desencadeando toda a polêmica em torno de Geese. Alguns destes métodos envolvem a criação de milhares de contas de fãs falsos, dedicadas a dominar as caixas de comentários de vídeos no TikTok ou de apresentações no YouTube.
É aí que entra a associação das táticas de “promoção” no universo virtual com conceitos militares, como o de “Psy-Op” (já generalizado à exaustão e, neste caso, um pouco desvirtuado) e “Perception Management” – não dá pra me aprofundar aqui, mas são temas que abordo no meu doutorado: conceitos de manipulação militar fina, que surgem, à princípio coincidentemente, mais ou menos na mesma época da implementação de uma rede de comunicação (supostamente) descentralizada: a internet.
O controle de percepção (“Perception Management”) tem sido utilizado pelo marketing digital de cabo a rabo. Na música, ficou claro que a estratégia ajuda a inflar a relevância e o impacto de determinado artista, produzindo a sensação de onipresença e inevitabilidade. Ainda que inconscientemente, tais ações fizeram com que Geese fosse um dos assuntos inescapáveis de 2025. E isso não tem nada a ver, até aqui, com o som da banda em si, mas com o escândalo que é (e de fato é), vermos as estratégias de divulgação da banda detalhados.
Só para terminar as referências, quem quiser se aprofundar em uma reflexão bem mais pesada do que essa, recomendo esse texto brilhante que conecta os conceitos e é mais detalhado do que eu ao descrever o atual momento da indústria cultural. Mas só pra dar mais uma “colorida” no quão absurdo isso tudo é, imaginem, nos anos 80 e 90, os zines, revistas e bandas independentes reivindicarem o jabá nas rádios ou na MTV e presença nos “top hits”. Soaria delirante, e acrescento que todas as bandas que “voaram perto demais do sol” do mainstream simplesmente despencaram depois, porque bastaram 5 minutos de exposição pra todo mundo perceberem que elas não eram o “novo Nirvana”. Jogar o jogo da indústria nunca foi indispensável, nem desejável. Continua não sendo, mas não é isso que estamos vendo (muito pelo contrário).
O lance é que, de Adorno à Fisher, acho que nenhum crítico da indústria sonhou em viver um momento em que absolutamente tudo o que se consome pode ser manipulado. De um vídeo viral “amador” a uma apresentação de TinyDesk de “banda autoral”, não há como medir a “organicidade” da difusão. Se algo chega à sua timeline, é bem provável (para não dizer inevitável) que aquele conteúdo seja impulsionado para adquirir um status artificial de relevância. Pode ser uma simples promoção paga, ou algo de maior “falsidade orgânica”, como comentários de contas fake. O jogo é muito sujo.
E a questão que fica, e que anda sendo ignorada pelos principais artigos que trataram deste assunto (em especial o da Wired) não é o quanto Geese pode ser, por essas e outras, realmente classificado como “industry plant“, ou como uma banda artificial (eles não o são). O ponto me parece ser muito mais profundo, e circula em torno de duas questões fundamentais: o quanto o nosso gosto pode ser moldado e; será que essa modulação é legítima, no caso do rock alternativo – que deveria ser, afinal, contra hegemônico?
No belo artigo de Tony Price que eu linkei acima, o autor volta ao Velvet Underground. O grupo foi promovido por um dos maiores artistas plásticos do século XX, e sempre lançou seus álbuns por grandes gravadoras. A “estranheza” que lhe garantiu vendas parcas de discos, e uma longa cauda de influência em contrapartida, não era um acidente. De alguma maneira, desde ali, nossa percepção sobre a ideia de “alternativo” em música foi construída – não foram muito mais estranhos, ou influentes, do que o Velvet, as experiências de Captain Beefheart, Mothers Of Invention, The Shaggs, Patti Smith, ou mesmo John Cale em sua carreira solo?
Isso diz respeito sim (ainda que em uma escala muito menor do que aquela implementada atualmente) à construção do gosto.
Seja como for, de Velvet a Geese, fica a minha segunda questão: o rock alternativo não deveria ser contra hegemônico? Embarcando nas estruturas viáveis de construção do gosto, dos anos 60 até hoje, eu tenho a impressão de que a “farsa” de Geese não é tanto essa ou aquela estratégia de marketing silenciosa, mas a formação de uma onipresença absolutamente inflada que advém de tais estratégias.
Em resumo, nem tanta gente deveria gostar de Geese. A banda de fato arrisca tanto, em um “retorno” a um rock estranho, tocado de forma orgânica e (às vezes) até ruim (tecnicamente), que o tamanho de sua repercussão não parece legítimo.
E não parece porque não o é.
E algo na web hoje é legítimo? Como alguém que já passou mais de 20 anos debatendo indústria cultural (e criticando veementemente até a sua crítica) eu tenho muita certeza de que a existência de uma contra hegemonia, em arte e música, não passam pelos métodos cristalizados pelo capital e por suas estruturas mais difundidas de controle. Me junto ao coro daqueles que se veem decepcionados, não com a banda Geese em específico, mas com toda a máquina montada em torno da divulgação musical atual.
Prefiro buscar meus consensos em outros lugares. E é nessa batalha de Davi contra Golias que sigo refletindo sobre o (inevitável) abandono da web como “palco” privilegiado da vida contemporânea.
Sim. Fuck Geese.



