Nossa seção “Tem Que Ouvir” não tem esse nome à toa

Um giro por lançamentos fantásticos que passaram por aqui nas últimas semanas.

Caspian Honeywell e RJ Santos – o duo Twisted Teens

Nessas últimas semanas me viciei em sons que eu também descobri aqui, no Silêncio no Estúdio. Sinal de que nossas dicas realmente valem a pena (até para nós mesmos).

Como os amigos já abordaram esses discaços, vou apenas dar meus centavos em um giro rápido.

Começo com a banda de Chicago Ratboys, com seu novo álbum, que Bruno Leo indicou aqui. Eu só acrescento que é, certamente, o disco indie (mais pro indie pop) mais redondinho do ano. Tem destaques absurdos com um acento noventista (que por vezes remete a Liz Phair ou até a um Cranberries), como Light Night Mountains All That e Anywhere – essa provavelmente o grande indie hit do ano (vejam o clipe abaixo!).

Outro destaque surreal foi dica do Márcio. A banda inglesa Dream Nails, com o disco You Wish. O amigo já destrinchou as referências certas em seu belo texto, mas acrescento que o disco também finca os pés nos 90s quando chega a lembrar The Breeders (na era Pod) ou mesmo L7. Isso tudo se ouve no single do disco – uma das melhores canções do ano: This Is Water. Um disco redondinho de indie punk pra ninguém botar defeito.

Por fim, o maior destaque do ano até aqui (pra mim): a banda Twisted Teens, com o disco Blame The Clown. Trata-se de um duo, formado pelo veterano Caspian Honeywell, que assume os vocais, e RJ Santos, em uma steel pedal. Os reviews estão tratando esse disco como algo derivado do country, mas fincado no punk lo-fi. Eu vejo mais marcas também dos 90s; um Guided By Voices no início de carreira cabe bem para compreendermos canções como as lindíssimas Wild Connection e Who Could It Be?.

Tem uma coisa em comum entre todos esses lançamentos que só me dei conta enquanto escrevia este texto: os anos 90. Muitos podem pensar (e pensam) que essa onda faz parte de um processo cíclico de modismo. Errado.

Eu já teorizei isso por aqui e, cada vez mais, me parece que estou certo, então vamos lá; mercadologicamente, as décadas são revisitadas, mais ou menos, em ciclos de 20 anos (os anos 90 revisitaram os 70s, os 00s os 80s, os 10s os 90s, etc). O que significa que o puro modismo retrô dos anos 90 já deveria ter passado, mas suas marcas na música seguem vivas. Isso se dá, segundo minha hipótese, pelo fato de que se trata de uma década que, além de não ter sido inteiramente assimilada (incrivelmente), não foi exatamente fundacional, ou singular em termos de sonoridade – o “som” dos 80s, por exemplo, é muito mais marcado e inconfundível. A década de 90 permitiu a exploração de diversas sonoridades (anteriores e “do momento”) em configurações que não eram exatamente novas, mas atemporais.

É o tal do “parece que foi ontem”. Sentimento que nos acompanha sempre que damos play em coisas como Guided By Voices, My Bloody Valentine, Pavement ou Neutral Milk Hotel, dentre muitas outras, e quando identificamos as marcas dessas muitas bandas em projetos atuais. Eu acho que os 90s e, em específico, o indie daquele tempo, sempre fará sentido. De um lado, porque foram exploradas tantas coisas ali, que ainda não se assimilou tudo. Por outro lado, porque não tem como vermos fenômenos como o do clipe abaixo e não pensarmos que isso faz muito sentido hoje, mas que também faria em 1996 – mesmo que boa parte dos fãs de Ratboys não tivesse sequer pensado em nascer ainda em tal ano.