
Lavava a louça todos os dias. E não havia nada de muito complexo nisso. Simplesmente acordava, media a situação da pia, colocava detergente na bucha e seguia em frente. Automático e indolor.
Certa manhã, acordou de qualquer tipo de intranquilidade e seguiu para a cozinha. Desta vez havia algo de diferente na pia. Ela estava quase vazia, limpa, impávida. Uma única faca se destacava. E não parecia estar suja, nem com uma manteiguinha sequer. Ele olhou o objeto de todos os ângulos possíveis, desconfiado. Era uma faca normal de cozinha: de serra, feita de alumínio, inox, ou qualquer que seja o material usado para fazer facas de cozinha.
Ele conhecia as facas. Ontológica e até etimologicamente (a palavra pode ter vindo de falcŭla, do latim, embora hoje em dia já não se saiba se essa é mesmo sua origem). Apesar de todo seu conhecimento sobre o objeto, suas aplicações e particularidades, essa faca em especial parecia demolir suas convicções. Sentia-se louco por olhar uma faca e duvidar se tratar, realmente, de uma faca.
(E qual não é a confusão de olhar um objeto, sabendo o que ele é, e algo – ou alguém – te dizer que aquilo não é o que você sabe que é?)
Não havia ninguém no recinto, então só podiam ser vozes na sua cabeça a desconfiar da pobre faca. Quanto mais olhava para ela, mais parecia assustadora e desconhecida.
Não havia mais o que fazer. Depois de tempo o suficiente, deixou a cozinha, a pia e a faca.



