
O currículo de 2025 traz um dos obituários mais pesados dos últimos anos para nós que amamos a música. Fiquei tocado quando semana passada, em sua homenagem ao Jards, Márcio escreveu que o ano talvez tenha levado pra longe a música de invenção. É certo que ela segue aí. Falamos de tantas coisas novas, todos os anos, arriscadas e inventivas. Mas não é sobre isso. É sobre saber que aqueles que ergueram as pilastras já não estão mais aí. Numa sequência muito rápida, perdemos Jards e, antes, uma perda que eu ainda nem consegui processar, e que me dá nó na garganta de pensar. O Lô.
Todo mundo já deve ter visto uma entrevista de 4 anos atrás do mestre para o projeto Um Café Lá Em Casa, de Nelson Faria – alguns trechos dela viralizaram bastante, em específico este ano. Em uma das passagens que mais chama atenção (perto da meia hora de vídeo), eles começam a conversar sobre o tal do “empréstimo modal”, e sobre como O Trem Azul é um exemplar quase perfeito da teoria musical em questão. É ali que o Lô solta uma de suas últimas e mais memoráveis farpas: “Eu faço música. Os outros é que estudam as minhas músicas”. Com 19 anos, ele não sabia o que estava fazendo (e será que mudaria se soubesse?).
Ele não sabia, mas ajudava ali a praticamente inaugurar um gênero com uma só canção. Na entrevista ele mostra, catando os acordes e palhetando amadoramente o violão, como compôs a canção. Fez na tentativa e erro, sem usar o shape correto dos acordes. Antes do tempo, meio punk – é perfeitamente possível imaginar um Kurt Cobain da vida (que, por sinal, usava muitas inversões modais) catando os acordes do mesmo jeito, fazendo só “power chords“. O que O Trem Azul inaugurou foi uma verdadeira pilastra do rock brasileiro, profundamente ligada harmonicamente à Bossa Nova (com sua sofisticação de costume). Não à toa, Jobim gravou a canção duas vezes. A última em inglês, em seu disco derradeiro, o Antônio Brasileiro, de 1994. Quem em sã consciência aproximaria os dois inventores brasileiros? Bem, o próprio Tom via uma evidente conexão.
Acho que passamos muito tempo sem perceber isso nas canções de Lô. Elas já estavam tão intrincadas em nosso imaginário, que passou batido o fato de serem inventivas. Ele seguiu, aprendendo ou não os acordes, a torcer completamente qualquer regra de composição – cheguemos a Vento de Maio, por exemplo, de ’79: uma das canções mais complexas, e completas, da história do rock nacional. Lô foi o típico artista que, sem saber o que podia ou não fazer, foi lá e fez. A música (e o rock, em específico) tem dessas: é uma das únicas expressões humanas onde, por vezes, a técnica e a teoria podem atrapalhar. O que não significa dizer que, para ser um grande compositor, você precisa necessariamente descartar a teoria. Mas significa que, para inventar algo em música, é bem possível que você precise ou dominá-la totalmente (como Tom dominava), ou ignorá-la.
As invenções de Lô não vieram, é certo, sem uma tradicional sutileza. O Clube da Esquina talvez tenha demorado tanto para entrar definitivamente no cânone dos grandes álbuns nacionais (inclusive lá fora) um pouco em função disso. Ao vento e sob o movimento dos trilhos, suas canções sempre nos arrebatavam, mas poucas vezes paramos para entender o porquê. Acho que foi só quando comecei a descortinar o rock progressivo nacional, nosso indie dos ’00s e, no fim das contas, minhas próprias canções, que me toquei do quanto os acordes em sétima maior definiam as coisas – quase como um maneirismo para alguns. Isso veio da bossa. Estava aí “no ar” para alguém catar. Lô o fez primeiro. E nos ensinou também a inventar.
Em plena ditadura, com gente sumindo e outras se exilando, a música nacional explodia na década de 1970. Eu sempre digo, inclusive, que os anos ’70 são a verdadeira “era” do rock nacional (que criou as bases, inclusive produtivas, para a explosão dos ’80). Mas agora, conectando a obra de Lô, Jards e tantos outros, acho enviesado falar apenas de um gênero. Parece que nos ’70s a gente dava mesmo a cara a tapa. Havia um Brasil sendo reprimido, mas este Brasil se impôs. Hoje, com uma repressão mais sutil (e, portanto, muitas vezes mais perigosa), nossa imobilidade é muito maior. O que significa que, ao menos temporariamente, precisamos aceitar que alguns sonhos envelheceram sim.
Que a vida e obra de Lô nos ajudem a reencontrar um caminho de invenção e risco. O tempo não para nem vai esperar.



