
” (…) eu gosto de fazer as coisas estranhas. Aliás, eu não gosto, não – elas saem estranhas.” – Jards em entrevista para o site Monkeybuzz, de maio de 2020.
Eu vi Jards Macalé ao vivo em 2004, na turnê de seu disco Amor, Ordem & Progresso, do ano anterior. Foi um show intimista e pequeno, no antigo Lapa Multishow aqui em BH – espaço onde hoje funciona a Autêntica. Conhecia pouco da obra do mestre à época, mas já entendia bem a referência que ele acessava com seu álbum, onde gravara o clássico absoluto Positivismo, de Noel Rosa.
A música original, do primeiro grande cronista em canção que o Brasil criou, diz que: “O amor vem por princípio, a ordem por base / o progresso é que deve vir por fim / desprezaste esta lei de Auguste Comte / e foste ser feliz longe de mim“. Jards cantou isso, do seu jeito (sempre estranho), e depois contou a maravilhosa história da canção, daquela forma serena e meio sarcástica que ele tinha. Ele ria. Eu achava aquilo tudo um barato. Já amava Noel, graças, certamente, a outro marginal que esse Brasil nos deu e que nos deixou cedo demais (o Mr. Sganzerla), e amei saber que aquele cara esquisito no palco abria um verdadeiro portal para milhões de outras coisas.
Jards era também uma biblioteca criativa, e a conexão de sua obra toda com o Positivismo de Noel fazia muito, mas muito sentido. Nada a ver com a doutrina Positivista, já enferrujada antes de secar a própria tinta. Mas me parecia muito pertinente àquela altura (e imaginem hoje!) pensar o Brasil a partir daquilo que nos foi negado, roubado, escondido. No caso de nossa bandeira, esconderam o amor, com a mutilação do lema positivista (que já não era tão interessante assim). O feito não passou passou batido pela crônica ácida de Noel, nem pela visão antropofágica transformadora total de Jards.
Ele era este cara aí da foto: camisa do super homem derramando sangue, calça de milico, chapéu de malandro, crocs no chão. Acima dele, uma foto que me parece de Moreira da Silva abraçando Raul Gil (alguém confirma?). Jards era uma biblioteca criativa. Mas não uma biblioteca criativa qualquer. Uma biblioteca criativa do repertório de um Brasil. Um Brasil total. Um Brasil que tudo pode porque não deve nada a ninguém. Um Brasil que se inventa, porque vai tentar fazer as coisas e elas saem assim, meio esquisitas. Meio desse “jeitinho” que todo mundo critica, mas que é mais valioso do que “terras raras”.
Assim Jards nos cantou, e nos encantou. Mudou minha vida. Boa parte da minha estupefação musical, como ouvinte e compositor, passa por tentar entender a Farinha do Desprezo, as 78 Rotações, o Movimento dos Barcos, o Vapor Barato, a Boneca Semiótica, o Anjo Exterminado, os Contrastes. Tudo dele próprio, e tudo dos outros, na sua voz, soa de uma forma como nada mais poderia soar. E nada mais soará novamente.
Eu já falei de seus maiores clássicos aqui no nosso site. Sobre seu clássico de ’72 (em um texto que me orgulho bastante, pois o recoloca como uma das maiores mentes por trás do superestimado Caetano); também sobre o Contrastes, obra-prima de ’77 (em outro texto que me orgulho – denso, ainda que conciso). Neste momento de luto, não me sinto em condições de analisar mais coisas da obra potente e pontual desse monstro sagrado. Me sinto bem, porém, de em todos esses anos de Silêncio no Estúdio, ter dedicado tantas linhas a Jards Macalé. Ele merecia isso tudo, e ainda merece muito mais. Infelizmente, no Brasil a gente tem que ficar lembrando, relembrando e gritando aos quatro ventos (às vezes em vão) sobre quais são nossos verdadeiros ícones. As verdadeiras bibliotecas que devemos preservar.
Acabei de ler algo inesquecível cunhado por um amigo: Jards era “o maior (ou o menor, por isso o maior, ou ao contrário, ou nada disso). Te amo Jards, você é meu herói, e sempre será.”. Eu chorei lendo isso (obrigado, Pedro Ávlia), e lembrei que para mim o Jards tem mesmo essa dimensão: a de um herói. Um herói pequeno, humano, errático, errado. Gênio total. Brasileiro, com amor, ordem & progresso (ou com tudo isso ao contrário, ou nada disso). Pode tudo na República Federativa de Jards.
O gênio que melhor me ensinou a “desentender” a música. O que é muito, mas muito mais importante do que entendê-la.



