A urgência da música no anacronismo de Nirosta Steel

Em uma obra que desafia o tempo, Steven Hall (aka Nirosta Steel) nos apresenta as melhores canções que iremos ouvir em 2026.

Passei mais tempo tentando entender o que era MY SKYSCRAPER do que necessariamente curtindo o álbum. Quando finalmente o fiz, fiquei totalmente entregue. Mas eu estava certo em tentar entender o fenômeno, porque ele cresce muito quando o contexto é esclarecido.

Se você der um play no disco antes de saber o que vou dizer a seguir, provavelmente sua reação será similar à minha na primeira audição. A de não conseguir localizar a obra em um tempo específico. Eu simplesmente fiquei comovido com as belas canções, mas completamente confuso com as sonoridades. Poderia ser um álbum gravado há 40 anos atrás, mas também poderia ser gravado esse ano por algum maluco, em um estúdio caseiro com gear analógico. Em essência, faz diferença? Não.

Como álbum, MY SKYSCRAPER é uma obra processual impressionante, com 17 canções que brincam com disco, house, dance music e alt-folk, tudo com um senso de urgência imperativo e com aquele clima lo-fi que marca gravações caseiras/alternativas.

Resumindo muito a coisa, é isso.

Mas o “twist” é que o trabalho soa desse jeito, criando uma enorme interrogação na nossa cabeça por ser, de fato, um disco processual por necessidade, e não necessariamente intenção. MY SKYSCRAPER é como se fosse um compilado de gravações caseiras do artista escocês-americano Steven Hall, que perpassam 40 anos de demos eternamente “em processo”. O selo mexicano ULYSSA fez o favor de pegar esse conjunto de obras inacabadas e reunir em um álbum, com coerência e senso narrativo. Transformou assim o que seria apenas uma coletânea em uma obra indispensável. Obra que revela um gênio perdido por aí. Um desses compositores prolíficos e complicados, que raramente conseguem “fechar” seu talento em trabalhos coesos. Não fosse o magnífico trabalho do selo, talvez nunca conhecêssemos nada da obra de Hall, assim como conhecemos muito pouco da obra de Arthur Russell, de quem Hall foi colaborador durante muito tempo. Russell tornou-se uma lenda, com muito pouca coisa registrada em disco. Agora isso muda para Steven Hall, que tem um excelente álbum para marcar sua biografia.

Musicalmente, quando digo que o disco vai da dance music ao alt-folk, é literalmente. O trabalho começa com ENGLISH PARTY, demo que foi gravada para ser oferecida à Madona. Outras canções dançantes aqui, como FIRST LOVE (DISCO MOONBEAM MIX) também poderiam ter sido vendidas a algum artista pop e estourado como hits em algum momento dos 80s ou 90s. Em outra parte (mais marcadamente depois de MY NAME IS NIGHT, o disco entra em uma esfera mais típica das sonoridades do rock alternativo. A “suíte” (acidentalmente?) formada por FRESH FEELING e SPECIAL WEEKNESS, totalizando 22 minutos, traz uma suspensão experimental impressionante – e soa como algo que poderia ter saído da discografia de Half Japanese ou Beat Happening. O disco ainda tem espaço para encerrar com climas meio art-pop, com pianos e grandes climas, revelando Hall como uma espécie de Todd Rundgreen lo-fi, perdido no tempo entre as décadas de 80-2000.

MY SKYSCRAPER traz, enfim, um conjunto de canções que “poderiam ter sido” e, finalmente, vieram a ser. Ganharam vida como o que efetivamente são: obras em processo, cuja mágica está não apenas na composição, mas também na forma absolutamente livre e amadora como foram performadas e registradas. Em uma entrevista fantástica recente, o artista disse que não queria que houvesse distinção entre ensaio, performance e gravação, como se todo esse processo fosse apenas um fluxo. De fato, é assim que a música deveria funcionar; com a gravação de estúdio sendo apenas uma das etapas de um encadeamento criativo muito maior. Infelizmente, geralmente é apenas essa etapa que conseguimos acessar, através dos álbuns que, nesta perspectiva, são tão obsoletos quanto necessários – um paradoxo terrível.

Para além dessas notas, é necessário mais uma vez entender MY SKYSCRAPER como um fluxo, onde o anacronismo é peça chave. Por se tratar de um conjunto que trafega por 40 anos (ou mais) de gravações em processo, é impossível situar a obra em um período determinado. É claro que as nuances eletrônicas de várias das canções aqui apontam para épocas específicas. Mas, em 2026, onde qualquer sonoridade é possível de ser sintetizada e regurgitada (por humanos ou máquinas), as canções de Nirosta Steel soam novas e velhas a um só tempo. E isso atravessa o disco de forma fundamental porque, nele, a época (com seus maneirismos e tendências) simplesmente não importa. Talvez seja justamente este involuntário anacronismo que faça a audição desse disco ser tão fascinante imersiva e … completa. Apesar de se tratar de um álbum, categoricamente, incompleto.

Quem diria que ser anacrônico, misterioso e processual seria tudo o que precisávamos nesta distopia descontrolada de 2026? No meio de um caos, onde o passado precisa ser destruído para que ninguém resista mais à (suposta) inevitabilidade do avanço tecnológico fascista, o grande disco do ano é uma obra que traz o passado para dançar, desafiando qualquer norma e tendência e se impondo como uma obra que grita o tempo todo para nos atentarmos para o essencial: a música.