fata morgana é tudo, menos ilusão de ótica

Em seu novo álbum, fata morgana, L'Rain mostra que é possível olhar para a frente, insistindo em crescer em um mundo que não foi feito para você prosperar.

No release de seu novo álbum no Bandcamp, L’Rain termina o texto com uma pergunta fundamental: “Como você cresce em um mundo que não foi feito para você prosperar?”.

A própria Taja Cheek, mente brilhante por trás do projeto L’Rain, responde a pergunta de forma impressionante. Através de uma experimentação que sempre encontra um “chão” para prosperar, a artista faz crescer uma das tradições mais negligenciadas da música alternativa: a de partir das experimentações livres para construir canções, paradoxalmente, experimentais e acessíveis.

A artista brinca com camadas e camadas etéreas de samplers, synths e outros “brinquedos”, mas sempre os aterra em culminações espetaculares. Como acontece na fantástica july 5th que, depois de um arpejo instrumental aparentemente desencontrado dos vocais (no melhor estilo Animal Collective, era Feels e Merriweather), termina com um dancehall inusitado. E como em soulless cycle (sem debates, a grande canção do ano), que também parte de loops etéreos para se resolver em uma porradaria: uma espécie de “punk espectral”, a um só tempo inusitado e recompensador.

A resenha do disco na Pitchfork atenta para uma curiosidade marcante do conjunto da obra de L’Rain: todos os seus discos são tagueados como “not jazz” no Bandcamp. O review usa este dado para fazer um joguinho de palavras divertido, mas eu já o levei para outro lugar. Ao negar o jazz, talvez L’Rain reivindique o lugar do improviso calcado em outros gêneros e tendências. Embora Taja relute imensamente em apresentar suas influências, ela uma vez citou Animal Collective, e isso é algo que não dá para “desouvir”. O senso de improvisação e construção livre de canções encarnados pela banda de Baltimore se reflete de forma magnífica em L’Rain, que não para por aí. Mescla também outras sonoridades dos 00s neste novo álbum (mais notadamente, talvez, TV On The Radio e Deerhunter). Isso tudo com um senso harmônico e melódico emprestado do R&B dos anos 90 (outra influência que Taja “confessa”). O resultado é fenomenal.

Se estas construções estéticas já marcavam o álbum anterior da banda, I Killed Your Dog (álbum do ano de 2023 para este que vos escreve), fata morgana traz peculiaridades e aprofundamentos. O disco trabalha arpejos em loop de forma sistemática, alternando muito bem momentos de suspensão com o “aterramento” já citado. Por um lado o disco alcança uma síntese nova, e inimitável. Por outro, amplifica a possibilidade de associação com Animal Collective e, num segundo degrau, com TV On The Radio, banda curiosamente em alta em 2026. Taja possui, é claro, o outro lado, mais calcado em um R&B experimental, traço que marca a excelente birthday – canção que traz um “chão” para a perna final do álbum, onde ele perde um pouco de fôlego, mas sem destruir o conjunto.

Apesar das minhas tentativas, nada em L’Rain é exatamente fácil de se descrever (ainda bem!). A gente vai catando uns índices. Fata Morgana (o efeito de ilusão ótica) nomeia de forma assustadoramente precisa um disco que parece flutuar em espectros para, em seguida, voltar à realidade com um senso de urgência arrebatador. Taja Cheek não está alheia a diversos desafios materiais contemporâneos, e preenche suas letras de dúvidas a respeito da realidade e do futuro. Imersos em um contexto onde prosperar tornou-se impossível, a alienação e a dúvida são fenômenos inevitáveis. L’Rain traduz este contexto em forma de música, não deixando espaço, nela, para ilusões. É possível escapar da realidade por alguns instantes, em climas etéreos e escapadas oníricas. Mas não o tempo todo. A realidade, essa malvada, uma hora nos alcança.

E a principal realidade de fata morgana é que, até aqui, trata-se do álbum mais empolgante de 2026.