Um trem descarrilhado (no melhor sentido possível)

Um dos movimentos mais primorosos de Train on The Island, novo álbum de Aldous Harding, é a última parte do single (e clássico instantâneo) One Stop voltando para compor a última parte de San Francisco, música da 2ª metade do álbum.

Esse retorno a um mesmo tema representa um movimento que não é necessariamente pra frente o tempo inteiro. E também não é cíclico. Aldous cria uma auto referência para encerrar duas das canções mais icônicas do disco. Em cada uma delas, ela – tão conhecida por mostrar tantas vozes diferentes em um só trabalho, numa versatilidade vocal ímpar – se compõe e recompõe como quer. Parece dominar tanto suas melodias e temas líricos que consegue ir e voltar com maestria. Neste movimento, não parece tanto um trem na ilha. É mais como um trem descarrilhado, que vai e volta buscando um caminho único, sem conseguir (o que é ótimo)

Train on The Island, sucessor do incrível Warm Chris, de 2022 (na minha lista de melhores daquele ano), é mais consistente e diverso do que o disco anterior. Mostra mais versões de uma Aldous já camaleônica por natureza. Na primeira parte, algumas canções, como as três primeiras, sustentam um clima baseado em fortes riffs de piano e melodias bem singulares. Na segunda metade do disco a artista explora climas mais folk, como em Coats, que encerra o disco. Uma canção que parece saída da fase Wings de McCartney.

O disco se apresenta muito nos singles, que de certa forma sintetizam o que o álbum tem de mais potente. A já citada One Stop traz um piano em arpejo a música toda, para se encerrar no clima meio folk (que volta na ótima San Francisco). A canção é um amálgama que acessa um lugar entre Carole King e Fiona Apple. Maravilhosa. Já Venus in The Zinnia, que traz um dueto com o cantor galês H. Hawkline, representa uma composição até mais “quadrada”, mas que funciona como um hit improvável no meio de um álbum caracterizado pela sofisticação de arranjos que não caminham exatamente para onde esperamos.

O epítome disso tudo que estou tentando descrever já está em I Ate The Most, que abre o disco. A música tem uma “cama” eletrônica, com um synth que a sustenta do início ao fim, com Aldous marcando a diferença entre estrofe e refrão simplesmente por uma explosão que é quase unicamente lírica – harmonicamente ela nunca vem: são as “pausas” com fills de guitarra, por exemplo, que criam a tensão necessária.

Aldous sabe mesclar letras densas, melodias cativantes e arranjos sofisticados, num conjunto que, quando dá muito certo, aparece como uma espécie de The Weather Station melhorado. Quando dá pouco certo, entrega hits que em uma primeira vista são mais despretensiosos, mas lotados de charme, como a faixa título e Venus in The Zinnia.

Baita disco. Arrisco dizer, um dos primeiros grandes discos gringos do ano.