“Tutto Passa”. Menos os clássicos…

Tudo deve passar. Menos o poder atemporal dos clássicos.

Agnes derrubou uma torre de CDs. A das letras “m” e “n”. Na minha frente, visualizei alguns clássicos como Loveless, do My Bloody Valentine, e este Everything Must Go, dos Manic Street Preachers. Como tô de boa de shoegaze por no mínimo uns 10 anos, resolvi dar o play no outro.

E aconteceu o que geralmente acontece com os clássicos. Eles podem ficar 30 anos em uma estante juntando mofo, que você os tirará para escutar e não terão envelhecido nem um dia, e você terá aquela mesma feliz sensação que teve quando os ouviu pela primeira vez. Esta pedrada dos Manics, de 1996, sucede o escândalo do desaparecimento de Richey Edwards (história brilhantemente contada pelo Bruno Leo aqui), e se chama Everything Must Go porque tudo deveria seguir, após o mistério incontornável de Richey. E tudo seguiu de forma brilhante.

O disco começa com um prelúdio escandaloso (Elvis Impersonator: Blackpool Pier) e, já nos primeiros compassos da canção seguinte, A Design For Life, vemos que o álbum não está pra brincadeiras. “Livrarias nos deram o poder / Depois veio o trabalho e nos libertou”. O letrista (e baixista, Nick Wire) faz uma alusão dupla aí. De um lado, as livrarias públicas que deram à classe trabalhadora galesa certo poder, através do conhecimento. De outro, uma adaptação do mote macabro estampado no portão da Auschwitz da 2ª Guerra: o trabalho vos libertará. Comunistas, inconformados e irremediavelmente roqueiros, os Manics nunca estiveram para brincadeira.

Apesar da porradaria que marca boa parte do disco, porém, são as cordas belíssimas e super melódicas da faixa título que nos levam pra outro lugar. A canção é uma das mais lindas do cancioneiro galês – e olha que trata-se de um baita cancioneiro.

Quando conheci Manics, a pessoa que me apresentou a banda disse que eu deveria odiá-la, porque, segundo ela, tratava-se de uma banda “com vocais de metal e uns arranjos ‘meio indie'”. Mesmo que a gente deva reconhecer os arroubos escandalosos e “glam” de James Dean Bradfield, eles estão muito distantes dos maneirismos do metal. Me apaixonei na hora pela banda. E isso faz quase 30 anos.

Que tudo passe. Menos a vontade de revisitar discões como este.