
Muito já foi discutido (aqui, inclusive) sobre o que torna determinado álbum um clássico. Talvez o tempo? A forma como foi concebido? O ambiente interno entre os artistas envolvidos?
Bem, se uma dessas coisas, ou o conjunto delas, for mesmo preponderante, The Getaway, disco dos Red Hot Chili Peppers que acaba de completar 10 anos, tem credenciais para ganhar este adjetivo.
A banda, que vinha de um período de adaptação após a (segunda) saída de John Frusciante, havia lançado I’m With You, primeiro com Josh Klinghoffer efetivado como membro oficial. O guitarrista, que já vinha atuando como músico de apoio, nos teclados e guitarra, nos shows da banda, teve uma participação de certo modo discreta neste primeiro registro, ainda produzido por Rick Rubin, que trabalhou de maneira ininterrupta com a banda desde Mother’s Milk, de 1989.
Tudo mudou no sucessor, The Getaway: para começar, a banda decidiu interromper a sequência de álbuns produzidos por Rubin, e recrutou o incensado Danger Mouse para conduzir os trabalhos. O novo produtor alterou até o processo de composição, substituindo o método tá bom/tá ruim do antigo chefe por uma forma de criação baseada na indução por ritmos programados e o uso do estúdio como ferramenta.
Isso tudo, aliado a questões pessoais do vocalista Anthony Kiedis, acabou por trazer à tona um disco mais sombrio, talvez comparável ao igualmente melancólico One Hot Minute, de 1995 (curiosamente também um disco sem a participação de Frusciante).
Com estes elementos, ganharam espaço harmonias conduzidas por piano (inclusive o de Elton John, que junto ao parceiro Bernie Taupin foi contemplado com a co-autoria de Sick Love, por conta da semelhança com sua Bennie and the Jets).
O maior destaque do disco fica para o single Dark Necessities e para a faixa-título, ambas trazendo uma sonoridade diferente do trivial do grupo, com influência clara de Danger Mouse na concepção. Mas a banda pisa em território conhecido em faixas como We Turn Red. Há espaço para mais inovações em Go Robot, que lembra um pouco o Daft Punk, e até um flerte com o progressivo em Dreams of a Samurai. Um ponto fraco é a desnecessária This Ticonderoga, em que os Chili Peppers indefensavelmente soam como Queens of The Stone Age.
Talvez o tempo não fosse tornar este álbum um clássico, não fosse a ruptura que viria em seguida, com a banda se reconciliando com John Frusciante e Rick Rubin e tendo que tratar de uma saída (passiva, mas não necessariamente pacífica) de Josh Klinghoffer, que seguiu em frente, tocando projetos com Redd Kross, Jane’s Addiction e Pearl Jam, entre outros trabalhos.
Retomada a formação clássica, a banda (assim como faz com as canções de One Hot Minute), deixou de executar ao vivo as canções de The Getaway, tornando este quase um projeto paralelo. Daquelas situações incompreensíveis do show business.
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