Olivia parece meio triste pra uma garota tão apaixonada

O terceiro disco da Olivia Rodrigo é a história de uma paixão do começo ao fim. Ambicioso e bem acabado que brilha quando aposta na criatividade.

O verdadeiro marco de um relacionamento sério não é conhecer os pais, é dividir a senha do streaming. E o verdadeiro fim é quando você percebe que tem que tirar a pessoa da sua conta, mudar todas as senhas, dar unfollow e apagar todas as fotos de casal do Instagram. A Olivia Rodrigo fez um disco sobre essa verdade universal.

Semana passada, escrevi sobre o As Tall As Lions e sobre como o Dani Nigro, vocalista daquela banda que tão pouca gente conhece, virou o produtor por trás de várias mini-divas pop. E novamente dá pra sentir o tempero do As Tall As Lions de um jeito ainda mais claro. As camadas de vozes, os arranjos que respiram, e aquela vontade de fazer um pop soando como indie.

O disco é dividido em duas partes quase como dois momentos de um relacionamento. Uma metade apaixonada e em lua de mel como em “Girl So In Love”, e uma metade de luto, negação tristeza e troca de senha como em “You Seem Pretty Sad”. A primeira parte é paixão, a segunda é ressaca. Em sua soma, o disco é uma narrativa de uma pessoa que se apaixonando e depois se desapaixonando. É uma ideia boa de sequenciamento e funciona como conceito.

Pra não dizer que o disco me agradou 100%, boa parte das músicas mais lentas, principalmente, soam como músicas que poderiam ser de qualquer artista pop. São bem produzidas, bem cantadas, e ainda assim cansam por serem muitas. Não é que sejam ruins, as letras e a canetada da Oliva são boas, mas me soou cansativo e repetitivo. Quando você se empolga na energia do disco, vem outra balada. O disco perde um pouco do fôlego com isso, mas não compromete a história geral.

O curioso desse disco é que a melhor versão da Olivia não está nos refrões. Está nos versos, nos riffs, nas transições e nas ideias. O brilho está nos detalhes, não na fórmula. E quando os detalhes aparecem, o disco flui muito bem. “Stupid Song” é o melhor exemplo disso. Ela começa parecendo uma balada feliz antes dos acordes saturados entrarem.

“Maggots for Brains” é a melhor do disco pra mim. É um ode ao New Wave. É o tipo de que a referência não é homenagem preguiçosa, é ideia criativa. O riff, a ideia e melodia são excelentes. O pico criativo da jovem Olivia, que aqui no seu terceiro disco, ainda mostra que tem lenha pra queimar.

No fim das contas, é um disco muito bom. Certamente o mais ambicioso e bem acabado da ainda jovem carreira dela. Um disco que nos seus melhores momentos, é cheio de ideia, de riff e de versos interessantes. Eu gosto muito mais da Olivia inventiva do que da Olivia que entrega refrão certinho.

Por isso eu acho que o disco funciona melhor como história que ela quer contar do que uma coleção de hits soltos. Você escuta, se empolga, se cansa um pouco no meio, e termina meio exausto. Que é basicamente a mesma experiência de se apaixonar.

No fim, a Olivia Rodrigo parecia mesmo meio triste pra uma garota tão apaixonada. Fez um registro honesto de quando a lua de mel acaba e sobra a parte chata de mudar as senhas, dar unfollow e apagar as fotos.


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