As Tall As Lions acabou, mas ainda vive com outras vozes. Quem é Dan Nigro?

O produtor Dan Nigro teve uma banda antes do reconhecimento que lançou um disco impecável há 20 anos.

O que Sky Ferreira, Caroline Polachek, Olivia Rodrigo, Chappell Roan, Reneé Rapp e Lorde têm em comum? O músico Dan Nigro produziu e co-escreveu hits com todas elas. Mas antes de se tornar um produtor de hits com alguns Grammys nas costas, Dan teve uma banda chamada As Tall As Lions, lançou 3 discos, e o do meio é perfeito e precisa ser mais conhecido.

Quando uma banda indie aparece, tudo pode acontecer. Ela pode lançar um disco e sumir, ou seguir fazendo shows e você até tem a chance de ver ao vivo. Muitas bandas dos anos 2000 foram desaparecendo e muitas delas eu nunca teremos a chance de ver ao vivo.

Mesmo terminando em 2010, o As Tall As Lions ainda vive de certa maneira. Não mais na voz belíssima do Dan Nigro, mas nas vozes de outras pessoas. Quando se escuta Olivia Rodrigo, um pouquinho do tempero do As Tall As Lions está lá. E por mais que eu sinta uma certa melancolia por não ter mais músicas novas dessa banda que tanto gosto, fico feliz que o talento do Dan ainda aparece de tempos em tempos.

Há 20 anos, sua ex-banda lançou um petardo que ainda escuto constantemente. O disco autointitulado do As Tall As Lions de 2006, mistura a grandiosidade do rock alternativo de Jeff Buckley com o apelo pop melancólico do Coldplay pré Viva La Vida.

O disco abre com “Stab City” e já deixa claro que não vai ter tempo para apresentações. Um piano lento, a voz do Dan Nigro chegando antes de tudo e então a bateria entra e transforma aquela introdução quase íntima numa coisa grande, cheia de camadas. É o tipo de abertura que te faz parar para ouvir o resto do álbum.

Na sequência, “Song for Luna” mostra que o disco não tem medo de ser estranho. A bateria começa sincopada antes de virar um refrão de guitarra que gruda. Tem vocais em duo aqui que fariam a dupla Layne Staley e Jerry Cantrell do Alice in Chains orgulhosos. O refrão sintetiza o que a banda sabia fazer de melhor. Pegar influências distintas e não deixar nenhuma delas soar claramente.

“Love Love Love (Love Love)” é uma daquelas baladas apaixonadas e utópicas. A bateria soa enorme, com um timbre que te coloca dentro do estúdio. Soa natural, quase ao vivo. O grande destaque aqui é a voz do Dan Nigro, trazendo uma vibe Jeff Buckley na interpretação. O jogo de vozes e harmonias é lindíssimo, a melodia do refrão gruda, e os detalhes dos arranjos de piano junto com o baixo marcado dão uma personalidade única à música.

O disco vai ganhando profundidade com “Ghosts of York”, rítmica e inquieta. “Milk and Honey” é talvez a música mais cinematográfica do disco. O tipo de faixa que parece existir para uma cena Absolute Cinema que você ainda não viu. “Be Here Now” chega como um hino que a banda merecia tocar em ginásios, mas nunca tocou. “I’m Kicking Myself” é um folk que o Bon Iver amaria ter feito. E em “Where Do I Stand”, está a grande performance vocal do disco.

Mas é “Maybe I’m Just Tired” que fecha e justifica tudo. É uma balada de piano que cresce devagar, com o Dan cantando sobre amar alguém e não saber como se resolver. Um tema simples, íntimo, que todo mundo já passou. E quando você acha que o disco acabou, uma faixa escondida quebra o silêncio com a música mais contagiante do disco como um easter egg carinhoso. Depois de dez faixas de melancolia e reflexão, a banda decide encerrar com uma alegria escondida.

Ouvir esse disco hoje, vinte anos depois, é uma experiência ótima e levemente melancólica. Não porque envelheceu mal, mas porque envelheceu bem demais para algo que tão pouca gente conhece. O talento que está aqui não desapareceu, apenas migrou para outras vozes. Mas às vezes bate aquela saudade de ter mais músicas com essa voz específica, nesse tom específico, que só o As Tall As Lions tinha.

Enquanto essa saudade existe, vamos nos contentando com o que o Dan faz pelas vozes de outras pessoas. Mais recentemente com o novo disco da Olivia Rodrigo.

Ouçam As Tall as Lions.


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