
Em um tempo distante, quando a crítica ainda não era tão veloz, talvez fosse difícil reconhecer um clássico no momento de seu nascimento.
Lançado em 21 de maio de 1971, What’s Going On, emblemático álbum de Marvin Gaye, o décimo-primeiro de sua carreira, ganhou uma resenha três meses depois na revista Rolling Stone, mas dividindo o espaço com Where I’m Coming From, de Stevie Wonder, lançado cerca de um mês antes, ambos pela gravadora Motown.
Porém, sem diminuir a grandeza de Wonder (longe disso), talvez o nobre escriba da Rolling Stone tenha deixado passar batida a importância do lançamento de Marvin Gaye, não só pelo seu caráter revolucionário dentro da música em relação ao que suas letras diagonosticaram, de um momento de perplexidade diante dos acontecimentos do mundo, mas também por outros fatores.
What’s Going On é o primeiro disco da Motown a dar crédito aos músicos de estúdio da gravadora, mesmo ainda mantendo aquela aura de “fábrica de sucessos” que a caracterizou. Também, junto com o disco de Stevie Wonder, foi a primeira vez que um álbum lançado pela gravadora teve as letras impressas no encarte.
Se é verdade que o disco de Marvin Gaye teria merecido um espaço exclusivo na resenha da revista, ao menos o crítico soube admitir que ficou surpreso com a virada na carreira do cantor, conhecido por seus sucessos românticos, mas acometido por uma depressão e uma certa síndrome do impostor, decidiu reavaliar o que queria que suas canções transmitissem ao mundo.
O resultado disso é um disco com canções que trazem o canto emocionado (por vezes melancólico) de Gaye, a maestria dos Funk Brothers (o coletivo de músicos de estúdio da Motown) e um retrato da situação do mundo, num encadeamento de músicas que versam sobre o pós-guerra (se é que há um pós), ecologia (já uma preocupação naquela década) e questões pessoais de alguém vivendo estas situações.
É inevitável utilizar o clichê de que, passados 55 anos, What’s Going On (que veja bem, não tem um ponto de interrogação no título) ainda soa atual. Mas que culpa nós temos se a história insiste em se repetir?
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