
Pegando carona no artigo do Vinícius Cabral sobre as teses de psy-op da indústria musical, ou a banda Geese (recomendo ler aqui), quero ir para um outro lado. A pergunta que, quando ainda estávamos debatendo sobre o tema, ficou no ar pra mim foi: “Mas desde quando isso é novidade?”. Não estou questionando a ética ou o absurdo de se usar manipulação pra gerar engajamento, meu ponto é: o marketing sempre existiu.
O que gosto do artigo do Vini é que ele claramente traz uma reflexão excelente. O rock alternativo deveria ser contra-hegemônico. Será que faz sentido aplicar lógica de indústria mainstream num gênero que se define pela negação disso? Tem muita nuance nessa reflexão e concordo com o ponto central. O que vou falar aqui é sobre o marketing de hoje e o marketing de antigamente.
Quando falam que o Kurt Cobain nunca gravaria um TikTok de 30 segundos pra divulgar o Nirvana, essa pureza do artista hipotético é romantizada demais. Quantos clipes o Nirvana gravou? (6 videoclipes pra ser exato). Os videoclipes foram feitos pra divulgar a banda e bandas e integrantes ficavam dias gravando, ensaiando e tudo mais. É trabalho de divulgação. Estar na MTV nos anos 90 era estar no TikTok hoje em dia. A ideia base é a mesma, o meio é que mudou.
Contratar pessoas pra usar a camisa da sua banda e lotar o lugar com “supostos fãs”, e chegar no seu primeiro show da vida de limusine, já aconteceu com o Kiss. Ter contas hypando o seu trabalho e compartilhando seus vídeos pra ter mais alcance nas redes não é exatamente a mesma coisa, mas é marketing também. Tudo é publicidade.
Escrevi uma tese de conclusão de curso que mostra como capas de discos funcionam como anúncios impressos na arte de persuasão. Ter uma ilustração com o fundo todo preto e um prisma no meio, com uma faixa branca vindo da esquerda e saindo do prisma colorido, é uma peça de publicidade.
Não gosto da romantização de que antigamente era melhor ou diferente. O mundo muda. As bandas de antigamente não eram mais pesadas que as bandas de hoje em dia. O Slayer ser pesado não faz o Sleep Token ou o Bad Omens não serem pesados. São dois pesos e duas medidas, literalmente. Cada um no seu contexto.
O que todo mundo quer é se divulgar. Algumas coisas podem ajudar, outras não. Outras não fazem absolutamente nada. Não adianta o Instagram e o TikTok terem apenas criadores de conteúdo ensinando como tem que ser a luz, como tem que ser o som, como a introdução tem que ser feita, onde sua cara tem que estar no frame, se o conteúdo não for bom.
Você pode usar psy-op ou manipular o quanto quiser, se a banda não for boa não vai segurar. Até os artistas feitos por IA, que as playlists do Spotify estavam empurrando goela abaixo, estão perdendo ouvintes. A música pode até soar bem ali de fundo, mas a conexão real talvez não exista. As pessoas podem até gostar ou não gostar de uma música, mas só gostar ou não gostar de uma música não coloca gente dentro de um show. Seguidor não é automaticamente um fã.
No fim das contas, quem quer uma conexão emocional com artistas e realmente se conecta com suas músicas pouco se importa se o Kiss colocou fãs de mentira no seu primeiro show. Talvez isso tenha ajudado a chamar a atenção pra uma gravadora querer assinar a banda. Mas se as músicas não fossem boas, ninguém ia ligar.
Se ninguém ligasse pra música do Geese, ninguém nem ia saber dos métodos de divulgação que foram usados. O que talvez incomode algumas pessoas a escreverem coisas tipo “as pessoas realmente não gostam da banda X” me parece um certo ressentimento. Não gostar de uma banda é genuíno e entendo completamente quem não gosta de Geese.
Mas, independente do meio, a mensagem sempre foi a mesma: “Olha a gente aqui. A gente existe. Dê essa chance e dê esse play. Talvez a gente se conecte e se veja num show pra 50 pessoas ou numa arena no futuro pra 50 mil.”
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