
O clipe de OMG do grupo coreano NewJeans (que vocês sabem que eu amo), se passa num sanatório. Parece um daqueles hospícios antigos, bem ao estilo do que vemos em filmes como Um Estranho no Ninho, do Miloš Forman (1975). O vídeo começa com a Hanni (em destaque no frame acima) caminhando por um cenário distópico, como se estivesse presa dentro de um iPhone. Ela narra uma alucinação, e descreve para o seu grupo no sanatório que ela é a Siri. O clipe segue com dancinhas e cenários multicoloridos típicos do k-pop contrastando com a gravidade do distúrbio narrado no início. Genial, e mais impactante do que muita coisa “independente” por aí.
É um vídeo que nos faz pensar sobre a indissociação entre navegar o dispositivo e ser navegado por ele. É sabido, tanto por pseudo ciências do comportamento (como o desgraçado behaviorismo) quanto pelo pensamento sério sobre cognição e teoria da mente, que nós efetivamente nos moldamos pelas extensões tecnológicas que usamos. Charles Peirce (o meu pai, né? e pai da semiótica) costumava dizer que, sem sua caneta, era como se um pedaço do seu cérebro estivesse ausente.
É sabido, nesse sentido, que escrever algo à mão é totalmente diferente de escrever no computador, ou no celular. E os resultados também são diferentes. Não é que a gente passe a pensar como uma máquina, ao escrever nela. Mas quanto mais integrado o processo é (entre o pensamento e seu registro), mais automatizado o pensamento se torna. Chegamos, hoje, ao ponto em que é possível falar e ser ouvido por uma máquina que processa comandos. O quanto isso prejudica etapas cognitivas nós ainda estamos descobrindo. Mas é fato que prejudica.
Seja como for, a alucinação retratada no videoclipe não parece tão distante assim. Muitas pessoas relatam sonhar com layouts de plataformas, ou tentar operar, no “mundo real” ações maquínicas em contextos analógicos. E isso já acontece há muito tempo – lembro de uma amiga designer, há mais de 10 anos atrás, dizendo que quando fazia uma cagada (tipo derrubar algo no chão) simulava o gesto de “ctrl z” com as mãos, na tentativa de desfazer o erro. É óbvio que não funcionava. Mas é natural que a gente pense de forma cada vez mais integrada aos dispositivos e se misture a eles, nem sempre de formas saudáveis.
Isso tudo me remeteu a outro evento recente muito marcante. A performance da artista Aphex Redditor, em uma galeria do Canadá (a obra teve uma dimensão presencial, mas foi transmitida ao vivo aqui). A obra, chamada BedRot, consistiu em apresentar a artista jogada em uma cama no chão da galeria por 24 horas, scrollando seu celular de forma ininterrupta, com o feed das redes sendo projetado em uma parede atrás de si. O resultado (que pode ser visto só para se ter uma ideia, no link acima) é chocante.
E eu não sei o que choca mais. Se é a aleatoriedade dos vídeos que aparecem no feed da artista, a frequência com que eles são scrollados (a depender do humor da espectadora/artista), a forma como toda a cena remete a uma alucinação digna do hospício do clipe da NewJeans, ou a denúncia que a obra acaba fazendo sobre os horrores de uma tarefa que se tornou cotidiana para tantos de nós: o doomscrolling.
Na obra, parece que artista e dispositivo se fundem para jogar na parede o resultado de um congelamento mental. Será que nós conseguimos realmente pensar no meio desse bombardeio de vídeos rolados pra baixo? O quanto nós estamos destruindo os benefícios do ócio, enchendo nosso cérebro de estímulos completamente desnecessários?
Enfim, são reflexões. Do clipe aparentemente inofensivo de um grupo de k-pop às galerias de arte, acho que é necessário, mais do que tudo, pensarmos nesta simbiose que estamos estimulando. Se a mente se molda ao dispositivo, e o utilizamos para apenas assistir, passivamente, o livestreaming do fim do mundo, será que estamos utilizando-o corretamente? E o principal: será que nossas mentes conseguem aguentar isso?



