
Ainda faltam seis meses para o ano acabar mas quando algo é divino, pode-se cravar uma verdade sem medo de ser pecado. Dobre os joelhos, lembre-se que tem circulação de sangue no posterior da coxa e entregue-se de corpo, alma e ouvidos para um rito de salvação do rock contemporâneo vestido de beleza e contracultura.
Dear God pode ser considerado um milagre do próprio The Pretty Reckless, finalmente tocando o céu depois de muitos anos olhando pra ele com o desdém de rockstar. Do firmamento, onde poucos conseguem chegar e ficar, Taylor Momsen, Ben Phillips, Mark Damon e Jamie Perkins experimentam a rara sensação da apoteose artística.
Sinceridade, poder e vulnerabilidade são palavras que tatuam imediatamente quem escuta o álbum e, à medida que as repetições avançam, um pequeno dicionário vai se formando. Letras se transformam em ações e sentimentos complexos, que acariciam e ofendem com a mesma intensidade, você acaba por se balançar sem controle durante os cinquenta minutos de duração do disco na esperança de que tudo nunca termine. Mesmo que machuque com euforia disfarçada, mesmo que cure com melancolia de penhasco.
Tudo deve estar fora de ordem, como a tríade “Life Evermore”, que abre na parte II e termina na parte I, com a parte III no meio de tudo. A benção da confusão, tal qual a vida, acaba por aproximar até mesmo aqueles que acreditavam conseguir ficar longe. A banda permite experimentar sem sacrificar a acessibilidade, o que causa uma espécie de desconforto agridoce com sabor tardio, uma dor muscular prazerosa de um treino bem feito.

Apesar de existir uma música chamada “Rollercoaster Of Life” — que tem uma atmosfera bem RHCP da fase Californication —, o passeio pelo disco é realmente uma montanha-russa daquelas que dão medo mas a fila pra subir de novo não para de crescer. De “For I Am Death” para “When I Wake Up” e “Love Me”, são sensações completamete distintas entre si. Elas não se colam, não se preocupam em se amarrar umas às outras pra ter uma coerência linear.
Quando “Dragonfire” entra (talvez a melhor da história do TPR), você já está sem qualquer domínio de percepção, aceitando o destino como alguém que deposita a fé numa religião.
Claro que a próxima é justamente a faixa-título “Dear God” e tudo talvez passe a fazer um pouco mais de sentido, ou quem sabe seja apenas um convencimento proposital da ousadia de entrar nesse templo móvel sem cinto de segurança.
Seria um sacrilégio etiquetar esse material apenas como rock moderno com emoções supervalorizadas em arranjos que vão do pop ao psicodélico setentista ou o punk dos anos 90. Dear God é um retrato humano e poderoso de uma banda que não precisou se reinventar para ser reconhecida: apenas seguiu em frente na própria evolução e se vestiu adequadamente pra quando fosse entrar no paraíso.
Entrou.
Amém.
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