
Toda continuação vejo com desconfiança. Ver o número “2” no título sempre causa expectativa. Em filmes é quase uma lei. Pegue algo que funcionou, tente repetir a fórmula e o resultado normalmente é vazio e decepcionante. Só que de vez em quando o universo fica alinhado e a parte 2 é incrível. Exterminador do Futuro 2 não só igualou o primeiro, melhorou. Toy Story 2 quase foi jogado fora pela própria Pixar e virou um dos filmes mais queridos do estúdio. As Duas Torres pegou o que O Senhor dos Anéis tinha de bom e esticou pra um território mais sombrio e mais épico. Continuações assim são exceção. Espremer uma história que já deu certo normalmente sai um suco requentado, sem gás, tentando vender nostalgia como se fosse novidade.
Fico pensando nisso porque a Madonna acabou de fazer a versão musical desses sucessos. Confessions II é sequência direta de Confessions on a Dance Floor, disco de 2005 que reuniu ela com o produtor Stuart Price e resultou num dos ápices da carreira da Rainha máxima. O disco de “Hung Up”, fez pistas inteiras no mundo inteiro confessarem. Agora, vinte e um anos depois, ela chama o mesmo Price e o gesto já seria arriscado. Seria mais um cosplay de sucesso passado do que continuação de verdade? Não foi.
Artistas do famoso “legado”, normalmente são criticados por não saberem a hora de parar. Existem carreiras inteiras esvaziadas por fórmulas em discos que ninguém pediu, mas alguns poucos conseguem se manter leves, sem pretensão nenhuma, seguem consistentes, mas a média é normalmente ruim. A Madonna mesmo já flertou com esse questionamento. Nem todo experimento recente colou. Por isso Confessions II parece mais um reboot do que nostalgia. Não é só “mais um disco maravilhoso” dela. É o melhor trabalho da carreira em vinte anos.
O disco com um pouco mais que uma hora é contínuo, feito para tocar como um set de DJ do início ao fim. Mas agora me parece um pouco mais pro house de Detroit e de Chicago do que para o Disco europeu que definiu o primeiro álbum. “I Feel So Free” abre o disco em modo confessional, com a Madonna sussurrando sobre esconder identidades atrás de personas, antes do disco virar uma pista pulsante. Dali pra frente ela vai seguindo com uma música atrás da outra sem deixar o ouvinte respirar. “One Step Away” é o tipo de refrão que gruda de primeira, “Bring Your Love” com Sabrina Carpenter funciona bem melhor no contexto do álbum do que como single avulso, e “Danceteria” é uma das melhores faixas da segunda metade da carreira dela. A música faz homenagem direta aos tempos dos clubes de Nova York, com direito a citação a Basquiat e Keith Haring.
A grande virada de Confessions II, comparado ao original, é que ele não tem medo de ficar pessoal. Depois de uns quarenta minutos de house, o disco desacelera para um trecho final mais introspectivo. “Fragile” é a homenagem dela ao irmão Christopher, com quem ela se reconciliou pouco antes da morte dele. “The Test” é um dueto com a filha Lourdes, quase como um pedido de desculpas por ela ter sido criada sob os holofotes da fama. “L.E.S. Girl” termina tudo como um fim de festa com violão e ressaca.
A versão completa do disco com 16 faixas fica um pouquinho cansativo, mas a versão em LP com 12 faixas me parece o tempo perfeito, mas tenho uma reclamação. No disco de vinil de 12 faixas simplesmente ficou de fora “Love Sensation”. Eu trocaria por “School”, que pra mim, é a faixa mais fraca do disco. Mas isso é o tipo de imperfeição que toda continuação acaba cometendo. Exterminador 2 tem suas vaciladinhas, As Duas Torres também. O que faz Confessions II funcionar não é ser perfeito, é ser real e confessional (perdão). Uma artista de 67 anos está fazendo um reboot do seu próprio auge sem tentar fingir que o tempo não passou e vai agitar pistas do mundo inteiro de novo.
No fim, toda boa sequência precisa parar de repetir a fórmula. Precisa mesmo é entender por que deu certo. A Madonna entendeu. Ela voltou pra pista de dança pra descobrir de novo quem ela é. Totalmente livre.
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