
É 2026 e você segue fiel a 1980. Porque tudo era melhor. Analógico, sensorial, descontrolado, desconectado, sexy, devotado a corpos em movimento. Os suecos aqui, mesmo distantes do suor de Sunset Strip, entenderam que as orações por essa década atravessam os anos (Jesus!) e ecoam intactas por nossa era, reproduzidas com o desejo de quem não viveu para ver, mas escolhe colocar capítulos adicionais para que a celebração siga por longos fins de semana.
In The Lust We Thrust tem esse espírito turbulento na sonoridade porém, quando vamos para o discurso, ganhamos camadas teatrais, góticas e até de horror. É Europe e Mötley Crue mas os compositores cresceram ouvindo Misfits. São hinos que penetram a epiderme, com refrões que viciam sem grupos de apoio, sob uma temática que coloca a mulher como o centro do desejo e, posteriormente, como ameaça.
Ao longo do disco, percebemos que tudo gira em torno do que acontece depois da conquista e de como cada reação pode ser mais do que perigosa. Na verdade, revela o poder inesgotável da figura feminina em todas as histórias. Entre sedução, perigo, diversão e morte, a ilusão dos personagens de que estão cruzando as fronteiras de seus alvos acaba por deixar claro que nunca estiveram no controle. E são punidos de maneiras pouco convencionais, como um taco de beisebol logo na faixa 2.
Nessa pegada assassina, temos “Misery is you”, que pode ser considerada o single de 2026 com certa folga. Desmond Child adoraria ter escrito isso da mesma forma que amou criar “I Was Made For Lovin’ You”. E por falar em Kiss, precisamos destacar a participação de Evan Stanley, filho vocês sabem de quem, que toca guitarra na maravilhosa “Victoria”. É a aura do Animalize mandando um ‘oi, sumido’ só que essa pegada nunca foi embora de fato.
É um caminho lascivo e jocosamente sanguinário que nos faz tentar se equilibrar num universo de Ghost e Alice Cooper, abraçando o melhor do melodic/AOR em tons cinematográficos. É a atmosfera oitententista nos teclados sintéticos, os riffs que comandam o balançar de cabeças e cabelos e os relatos soturnos-engraçados que temperam a luxúria mortal das protagonistas.
E é só o segundo disco de The Devil Wears Nada.
Imagina se o diabo estivesse vestido.
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