
Quem é cronicamente online já deve ter visto alguns vídeos divertidos de gente assistindo uma cena de um filme de terror qualquer, que está o maior silêncio, e do nada vem um barulho/grito/susto absurdo e a pessoa desliga a TV e começa a ver a abertura do Mickey Mouse Clubhouse pra se sentir mais confortável.
Filmes com sustos amam um contraste. O personagem caminha devagar por um corredor. A música some. Tudo fica quieto demais. É esse silêncio, não o monstro ou fantasma, que faz você ficar com as mãos tensas. Você sabe que o susto vem, mas quando a explosão chega, tudo é desproporcional justamente porque você passou momentos tensos prestando atenção no vazio.
O Spielberg usou e abusou disso no clássico Tubarão. O tubarão em si quase não aparece na primeira metade do filme, e é justamente por isso que ele te impacta tanto. A banda MX LONELY em seu novo disco chamado ALL MONSTERS também faz a mesma coisa em sua música.
A banda do Brooklyn, na cidade de New York, começou em reuniões do AA. Foi lá que o guitarrista Jake Harms, a vocalista/sintetizadores Rae Haas e o baixista Gabriel Garman se conheceram, cada um com seus projetos musicais. O nome da banda vem de um apelido que Rae Haas deu pra figura sombria que aparecia em seus episódios de paralisia do sono. A banda nasceu desse silêncio paralisante e da vulnerabilidade das reuniões do AA. E seu som é a consequência disso.
ALL MONSTERS, lançado em 20 fevereiro de 2026, é o primeiro disco completo da banda oficialmente com o nome MX LONELY. A banda lançou anteriormente um trabalho com o nome v0idb0ys. É um disco construído como uma boa edição de filme de terror. Pega o que estava em silêncio e, depois da tensão criada, solta o máximo volume. O conceito do disco é sobre destruir seus monstros. Que já fica bem mais claro na música “All Monsters Go To Heaven”.
Ainda na escola, Jake Harms escreveu a música “Blue Ridge Mtns” e teve a reação mais natural possível. Ficou com vergonha da música ou de mostrar pra alguém. Agora no MX LONELY, a banda pega essa vergonha e a amplifica até ela virar um grito de libertação. A música fala de uma viagem de carro até uma clínica de reabilitação. O silêncio envergonhado de anos se transformou em grito de liberdade.
Pra entender o vocabulário musical do MX LONELY é só anotar a receita. Pegue um pouco do loudQUIETloud do Pixies, o barulho do Shoegaze do My Bloody Valentine e o clima sensual e espacial do Deftones e faça uma argamassa sonora. Contrastes entre silêncio e brutalidade. Ainda dá refogar um pouco de The Cure antes de começar a receita.
O Shoegaze empresta a barulheira nos momentos de contraste ou nos momentos de “susto”. A parte espacial da música, nos momentos mais calmos, cria uma tensão pro impacto ser maior. E é assim que o disco vai destruindo seus monstros e abrindo portas pra uma banda que se inspira e respira. Talvez o disco pudesse ser um pouco mais sequinho, deixando o clima mais dreamy para as vozes. Mas isso não compromete a obra completa.
O que Spielberg, os Pixies, e o que o MX LONELY agora também sabe, é que o contraste não é apenas um recurso estético. É uma estratégia emocional. O silêncio não é a ausência do monstro. É o monstro acumulando pressão. ALL MONSTERS é um disco que senta com você no corredor escuro, silencioso e vazio. Mesmo sabendo que o susto e seus monstros vão aparecer, nada como uma boa tensão musical pra que o impacto chegue diferente em cada uma das músicas.
Pra destruir os monstros pessoais, não precisamos colocar o Mickey dançando pra nos dar conforto. O barulho que vem depois do silêncio também pode ser libertador.
Faixas
- Kill The Candle
- Big Hips
- Shape Of An Angel
- All Monsters Go To Heaven
- Blue Ridge Mtns
- Anesthetic
- Return To Sender
- Whispers In The Fog
Ouça na sua plataforma favorita
Assine nossa Newsletter e receba os textos do nosso site no seu email



