Palpites & distrações (para um 2026 sensato)

Estamos de recesso, mas isso não nos impede de trazer umas previsões (ou chutes?) para 2026.

2026 é o ano do CD. Comprem CDs

De ressaca de ceias, volto aqui pra contar que o Silêncio no Estúdio está de recesso. Abrimos mão do compromisso semanal com vocês por algumas semanas (pelo menos até os lançamentos de 2026 começarem a aparecer). Mas isso não significa que não podemos dar as caras de vez em quando. Quando acharem que devem, nossos colunistas podem trazer resenhas, novidades, clássicos ou qualquer outro tipo de texto até retomarmos de vez a rotina coletivamente.

Para fechar esse ciclo todo depois da maratona que sempre é elaborar cada lista de “melhores do ano” que trazemos pra vocês, vou apenas trazer algumas reflexões pra guiar este 2026 que já começa totalmente de pernas pro ar. Trata-se de uma listinha boba de previsões (estão mais pra chutes, vai) daquilo que irá marcar este próximo ciclo, a partir do que vivemos em 2025.

1. A derrocada inevitável da IA

2025 foi marcado pela explosão da IA, com chatbots e IA generativa sendo empurrados pela nossa goela. Empurrados. Ninguém pediu por isso, mas cá estamos, mergulhados em AI Slop. É só isso que aparece nos feeds de todo mundo, e já temos aqueles exemplares de seres humanos super dispostos a pendurar seus cérebros em um cabide e terceirizar absolutamente tudo para um chatbot. Triste. Mas existem boas notícias em relação ao tema.

Apesar do frisson enfático de alguns e do contorcionismo da imprensa em anunciar a IA generativa como a maior invenção desde a lâmpada, o projeto de desenvolvimento das Inteligências Artificiais é bastante impopular. Segundo pesquisas recentes bem sérias, mais da metade da população americana tem receio da difusão indiscriminada de conteúdos artificiais (afinal, já era difícil garantir idoneidade factual antes da IA nas redes sociais), e maçantes 70% acreditam que a IA roubará seus empregos em um futuro próximo (isso dentro do universo daqueles que ainda tem empregos, né?). Sobre a construção de datacenters, isso já é cristalino: a população dos entornos dos elefantes gigantes de chips refrigerados já sofre com escassez de água e aumentos substanciais nas contas de luz.

Há também o problema econômico da coisa. A IA é um projeto trilionário, baseado apenas em especulação e investimentos cíclicos a fundo perdido. Isso gerou uma bolha que, em algum momento, vai estourar. E já tem muita gente séria prevendo que será uma recessão mais grave do que a de 2008. Seria desumano da minha parte comemorar recessão. Mas talvez algumas dessas empresas precisem quebrar para ficar claro o delírio prometido por elas mesmas.

Em relação especificamente à classe artística, acredito que somos a barreira final de contenção em relação ao delírio generativo. Tem gente bastante convencida a simplesmente constranger quem utiliza a IA como “auxílio” em seus projetos artísticos. E esse ponto, para mim e para muita gente, já é pacífico. Se a máquina não toma chifre, não perde entes queridos e lida com o luto consequente, se não sente em matéria orgânica qualquer tipo de dor, ela não cria. Aqui cabe um longo debate sobre como há uma imprevisibilidade resiliente na ação criativa humana, mas nem cabe me estender, porque sei que vocês já me entenderam – é lindo como, por exemplo, descobriram recentemente que a poesia consegue de certa forma hackear as IAs.

A previsão é, afinal, muito boba mesmo, mas esperançosa: eu acredito em uma derrocada significativa do projeto da IA para 2026. Seja pelos destroços de uma bomba relógio prestes a explodir, seja pela reação orgânica de artistas e profissionais, a IA pode se tornar cada vez mais um lixo indesejado, do qual precisamos correr sem olhar pra trás. Antes que me digam que a IA é útil pra muitas coisas e não deveria ser combatida, minha posição é a seguinte: eu amo a IA, desde que ela sirva para limpar meus pratos, arrumar minha cama ou organizar um amontoado surreal de documentos em uma repartição pública – essa é a aplicação chinesa da IA. Por aqui, como um “amiguinho assistente” ou ferramenta para constranger mulheres publicamente em redes sociais, eu quero mais é que a IA morra.

2. A mídia física extrapolando os modismos: foda-se o streaming

A exaustão em relação ao lixo de IA se estende inevitavelmente ao lixo da web bostificada (já falei sobre este conceito aqui). E parte crucial desta web é representada pelo consumo de mídia. Já ficou muito claro que o Spotify mudou o comportamento dos ouvintes de música, irremediavelmente arrastados para playlists e recomendações algorítmicas sem alma ou cor. Mas também já ficou claro que, apesar de uma derrocada comercial gigantesca, que destruiu de vez os formatos físicos em termos de valor, o álbum não morreu – nós, e inúmeros veículos da imprensa musical mundial seguimos fazendo listas de “melhores do ano”, o Last.fm voltou com força … as pessoas querem, enfim, ouvir discos.

A resiliência dos formatos musicais clássicos se reflete na procura incessante pela mídia física. Mas nossa bolha segue na toada insistente do vinil, como se desse pra gente manter coleções com o atual contexto inflacionário que envolve a cadeia de valor na produção de mídia musical. O CD e o cassete, que eram opções mais acessíveis, ficaram muito caros. Imaginem então o vinil. É evidente que pelos sebos da vida ainda se conseguem algumas barganhas (e temos projeto incríveis que disputam essa ideia da especulação do vinil como o Adorno’s Lab), mas no mercado “oficial” os preços só disparam. O que desafia a mentalidade dos liberais que até hoje acham que só oferta e demanda regulam os preços. Existem mais fábricas, mais lojas, mais compradores (até o dólar abaixou um pouco) e, no entanto, você não consegue comprar um lançamento em vinil no brasil por menos de 250 reais. Faz sentido?

Se formos falar de nichos ainda mais específicos, vejam se faz sentido o preço do clássico triplo de Joanna Newsom …

Pra mim não faz. Sigo advogando pela adoção do CD, ainda que o preço também tenha disparado (acho que, neste caso, é possível que os preços se regulem de forma mais aceitável com uma regionalização das cadeias de produção). E isso cabe mais como um apelo do que uma previsão. É evidente que todo mundo que ainda se preocupa com álbuns e com música de maneira mais profunda está de saco cheio dos streamings – em 2025 eu já consegui praticamente adotar o Bandcamp como plataforma principal, e voltar a baixar álbuns em .mp3 ou .flac. Só falta, realmente, um empurrãozinho para deixarmos a web, o conjunto de assinaturas absurdas, as bibliotecas que não são nossas, e por aí vai. Já tem muita gente correndo para o .mp3, pendrives, etc. Minha previsão é que a tendência apenas se reforce.

É evidente que, das mídias físicas, a gente deveria privilegiar aquelas que podemos adquirir. Sei que existem vantagens afetivas e (em alguns casos, poucos, mas alguns) sonoras em se adquirir os bolachões. Mas, para ter coleções de fato e apoiar bandas locais, você prefere gastar 200 num vinil de uma banda da cena (pode até ser alguma banda hypada, digamos, de Florianópolis) ou 50 reais num CD? A essa altura, essa é uma questão de finanças.

3. O rock vai vencer de vez

Todo mundo deve ter visto os “irmãos Oasis” voltarem. Foram mais de 120 mil pessoas em dois dias em um estádio em São Paulo. Eu fiquei impressionado. Não que eu duvidasse do potencial comercial da banda. Eles já tinham estourado nos anos ’90, e isso não era novidade. Mas seu retorno foi uma marca definitiva de que a boa e velha banda de rock “direta e reta”, sem rodeios e com muita distorção, está de volta. E que bom que não foi um retorno de bandas de hard rock farofa, ou metal – com todo respeito aos colegas que amam isso – afinal, estes subgêneros meio que nunca morreram.

O mais impressionante acho que foi isso; os irmãos Gallagher conseguiram produzir um frisson que pode até ser analisado como um dos maiores retornos da história do rock. E eu atribuo parte dessa potência ao fato de que eles capturaram os saudosistas dos ’90 (já entre 40-50 anos de idade) e seus filhos, da Geração Z – que também já são bombardeados com canções da banda em seus feeds diários a algum tempo. Essa união de gerações produziu uma “furada de bolha” interessante.

Mas isso vai se estender a outras bandas? Já tem tempos que bandas históricas do indie têm se valido dos revivals algorítmicos (aliados a um diálogo de gerações) para voltar – tão aí o Pavement, My Bloody Valentine e muitas outras para demonstrar o que eu tô falando. Mas agora a coisa subiu alguns degraus. O rock já parece entusiasmar mais a garotada do que o trap ou o hyperpop entusiasmaram há poucos anos atrás. Isso não se revela apenas nos revivals, que acabam ficando gigantes pelo componente nostálgico impulsionado por gerações anteriores. Se revela na natureza das bandas que andam hypadas ultimamente e, sobretudo, na vivacidade de cenas locais. Quem nos acompanha por aqui já sabe destas bandas, e destas cenas.

A previsão, portanto, é uma escalada deste contexto. Até porque as notícias envolvendo a Geração Alpha são ainda mais interessantes. Este ano lecionei a disciplina “Clube do Disco”, como já contei por aqui. No segundo semestre levamos a disciplina para uma turma ainda do fundamental (com alunos entre 12 e 15 anos). Com duas ou três exceções, a esmagadora maioria dos 25 alunos disseram que o rock era seu gênero favorito. E rock de muitas variáveis, de Beatles e The Clash à Motörhead e AC/DC. Ainda que eu não seja o mais “roqueirinho” dos caras (o meu lance, vocês sabem, é música esquisita), eu reconheço que o gênero é um dos mais afeitos a tempos de transformações, rebeldia e “dedo no cu e gritaria”.

Temos que reconhecer: se essa não for a hora pra quebrar tudo, qual será?

Só um parêntesis antes deu ir embora: pelo que estou observando das antecipações e discos mais aguardados de 2026, não é bem o rock que vai dar as cartas, mas o eletroclash e um revival da música dançante dos ’00s. Bem, tomara que não.

Resumindo tudo: A IA que se foda. Comprem CDs. Comecem uma banda nas suas garagens*.

*Toda a merda que estamos vivendo pode ser resumida pelo fato de que nerds pararam de criar bandas em garagens e começaram a abrir startups nelas. É hora de constranger os filhos da puta que destruíram as nossas vidas.

Feliz 2026!