“Em algum lugar essas palavras existem”

Ou: sobre patos e perdas. IA e poemas de verdade.

Ou: sobre patos e perdas.

Por mais incrível que isso possa parecer, outro dia li um tweet que me marcou. Me fez refletir tanto sobre a morte da linguagem que todos parecem abraçar, quanto sobre a impossibilidade de matá-la, no fim das contas.

É só simbólico, no entanto. A alucinação que a IA consegue replicar não é a “boa” alucinação humana. Aquela que, quando parei pra pensar, notei que constitui o cerne da nossa linguagem. A espinha dorsal da poesia, inclusive. Imediatamente, lembrei-me desse belo texto (que inclusive inspirou meu exercício sobre 2016). Nele, o Cronista compila diversas expressões humanas tentando dar conta do sentimento de perda*. Alguns desses trechos são do belíssimo A Guerra Não Tem Nome de Mulher, de Svetlana Aleksiévitch, que compila centenas de relatos das mulheres soviéticas na II Guerra Mundial. Um destes relatos é muito tocante, pois truncado e honestamente vago. “Em algum lugar essas palavras existem… É preciso um poeta… Como Dante…” – Anna Pietróvna Kaliáguina.

Acontece que as palavras, essas danadinhas, nunca darão conta de exprimir exatamente tudo o que é sentido por nós, humanos. Nenhuma linguagem, aliás, é capaz de exprimir exatamente. Ela apenas representa. E é justamente a forma de representar que pode nos afastar ou aproximar de determinado fenômeno. Anna Pietróvna invocou a poesia. E essa é cheia de nuances e contradições. Quanto mais vaga, mais certeira ela parece. Eu, diante do maior luto que já vivi, recorri a imagens simples em Como Um Rio, da Paira.

Ninguém quis ficar e ninguém saiu
Longe e cheios como um rio
Agora é muito tarde pra recuperar

O dia clareou
E eu quase não dormi
Tudo vazio

Estava tudo vazio, mas estávamos longe e cheios (como um rio) Contradições. É também o “quase”, do “quase não dormi” que me balança. Eu não tinha como exprimir o vazio, a dor, a perda. Mas podia tentar criar uma imagem: estar em algum lugar sem querer, sem poder sair. Estar cheio de dor, mas inerte. Quase dormir, quase viver. Apenas seguir. Alguns disseram que isso era boa poesia. O que eu precisei, depois, foi descobrir o porquê. Imediatamente já fui levado a outro texto (esse ainda não publicado), também sobre perdas, sobre os “vazios”. Este começa assim:

Quando venho ao Parque Municipal para sentar perto dos patos, encontro um ou outro respirando em ritmo de descanso, com apenas um olho aberto.

Eu não sabia disso, mas acontece que patos dormem com um olho aberto, para poder fugir se detectarem uma ameaça. Vêm e vão, neste ritmo entre descanso e vigília, como guardiões das idas e vindas. Certamente reagem melhor do que nós quando têm que abandonar algo. O ponto aí é que os patos suscitam diversos sentidos (como um “quase”, ou como um rio). Em outro exercício ficcional, são eles que desencadeiam as crises de pânico de Tony Soprano. Sua psiquiatra diz que eles representam o medo de perder sua família. Mas isso é simplista. A grande fascinação que a passagem dos patos em Os Sopranos nos provoca é, justamente, nunca a entendermos direito. Precisamos?

Não. E sequer precisamos nomear tanto as coisas. Os signos só precisam ser inteligíveis quando precisamos dar direções, explicar conceitos, e coisas assim. Em poesia, nosso único caminho é um tipo de alucinação. Mas um tipo muito específico, distante do da IA. Uma alucinação que, diante do sentimento mais forte, sabe que não pode descrevê-lo, então parte para uma espécie de fuga. Tenta criar fissuras na linguagem, apostando na vagueza como recurso para levar o leitor àquele sentimento. É responder à dor com patos, por mais absurdo que isso possa parecer. Em algum lugar, as palavras existem. Ainda que sejam palavras tão distantes (e, até, desconectadas) da “coisa em si”.

Se você escreve um prompt para uma máquina fazer isso por você, você está morto por dentro.

*Esse texto alugou um triplex na minha cabeça. Após muitas descrições, super comoventes (como a de Anna Pietróvna), o autor lança um parágrafo de ChatGPT que faz um resumo mecânico, descritivo e pobre da “essência” dos depoimentos que o texto compila. Há um choque que a linguagem do robô produz. O texto da IA deixa bem claro que ainda é necessário ter uma alma para se produzir alguma coisa que preste. Que bom.