Estamos todos sempre errados

Uma observação sensorial de "Always Wrong", do Eisley, que nos faz escorrer pra fora de nossa pele.

Tem algo de Leigh Nash na Sherri Dupree mas é inútil tentar apontar exatamente onde uma começa e a outra termina. Talvez ambas tenham anjos tocando suas cordas vocais como se fossem contrabaixistas, com a diferença de que os que estão na vocalista do Eisley tenham menos auréolas que os da cantora do Sixpence None the Richer.

Você pode passar pelo disco I’m Only Dreaming buscando milhões de razões pra não incluir a melancolia na sua lista de afazeres mas logo no começo, isso já se torna inimaginável. “Always Wrong” é uma fábrica lacrimal instantânea, daquelas que obrigam qualquer caos externo a esperar a reflexão. Você pode escolher sair na chuva, correndo o risco de ter o coração e o corpo partidos por um raio ou uma lembrança que o cotidiano obrigou a esquecer, ou ficar olhando pela janela a paisagem mudar para aquilo que acontece dentro do seu próprio corpo.

Não importa muito em qual lado dos personagens você esteja. Dói do mesmo jeito. Seja pela angústia intermitente de colecionar o máximo de partes de alguém para caber na sua existência ou na suposta indiferença de viver uma devoção doentia de terceiros que se alimentam de migalhas de sua atenção ou pequenos furtos de sua personalidade.

Atravessar os três minutos e cinquenta e sete da canção é descolorir o dia de propósito, mas de um jeito estranhamente bonito. O peito aperta, as imagens desaceleram, a gente troca de lugar com os versos, reinventa decisões questionáveis e acaba por aceitar que, às vezes — ou quase sempre — fugir do que nos entristece é sorrir com o pior tom de amarelo possível.

São papéis que a música, enquanto criada a partir de sensações e não prompts, precisa cumprir. O de obliterar o tempo e as convicções paliativas para a sobrevivência no rolo compressor do calendário. Da reflexão adiada por trivialidades vem a obrigatoriedade de encher alguns reservatórios morais com aquilo que ainda te comove.

No fim, estivemos, estamos e estaremos todos errados.
Mas a forma como esse erro nos humaniza aqui, é certeira demais.


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