
Eu não ia fazer esse texto. Ele é que se impôs.
Semana passada (precisamente, 5 de agosto de 2026), Revolver fez 60 anos. Eu não sabia imediatamente o que pensar sobre isso. Com 6 décadas de influência e sendo colocado constantemente à prova (não só do tempo, mas também de inúmeras tentativas de revisionismo tosco), o que dizer dessa pedra fundamental?
Bom, muitas coisas.
Mas eu vou começar dizendo que Revolver é um dos álbuns que eu mais conheço. Vejam bem. Não disse que é um dos meus álbuns favoritos. É um dos que eu mais conheço. Conheço profundamente. Como se fosse uma pessoa.
Eu sei exatamente como ele se apresenta de forma sarcástica e engraçadinha (Taxman) para, logo em seguida, já mostrar sua face mais melancólica e densa (Eleanor Rigby).
Sei também como ele pode parecer meio “nóia largadão” (I’m Only Sleeping) ou “nóia tilelê” (Got To Get You Into My Life). Também tô cansado de saber que ele tem um lado infantil meio insuportável (Yellow Submarine), mas que se recupera disso com toda a profundidade sentimental que se esperaria de alguém tão complexo (For No One).
Não posso deixar de mencionar também que já sei a hora que ele fica bem chato e meio palestrinha (Doctor Robert, I Want To Tell You). Mas que também se recupera disso com uma virada épica, inesperada, futurista, daquelas que deixa todo mundo pensando: de onde saiu esse ET?
E é justamente essa face desse meu “amigo” inusitado (que já me acompanha há quase 3 das 6 décadas em que está no mundo) que eu acho mais encantadora: a do visionário sem limites. Essa face, escancarada em She Said, She Said ou Tomorrow Never Knows, continua deixando todo mundo meio que de cabelo em pé.
Todos já estão cansados de saber, aqui, como se deram os detalhes das gravações. Como os Beatles, quase sem querer, anteciparam a lógica do sampler, a canção eletrônica, o rock alternativo e tantas outras coisas. Eu não estou aqui para reforçar todos esses atributos. Estou aqui porque, há quase 30 anos atrás, comprei um CD chamado Revolver e que ele é, até hoje, como uma pessoa para mim.
É “alguém” que eu não imaginaria viver sem. Um corpo complexo, que encanta, irrita, alegra, entristece. E que, sobretudo, não para de encantar. Quando você acha que já o conhece e que ele nunca mais vai te surpreender, você fica algum tempo sem vê-lo e, de repente, tudo nele parece novo quando do reencontro.
Isso é porque, visionário, ele sempre esteve realmente muitos passos à frente. O Revolver dos Beatles tinha o futuro na mira. Ainda bem que nós estávamos no meio do caminho para receber esse tiro.



