
O ano de 1988 podia ter mudado para sempre a história do rock nacional. Não mudou.
A história é insólita (e eu dei um spoiler aqui): 3 Lugares Diferentes, terceiro LP da banda Fellini, foi eleito melhor álbum de 1987 por votação dos críticos da Revista Bizz. Por alguma circunstância desconhecida (super desconhecida, não é mesmo?), tiveram que levar a eleição a um forçoso empate com Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, dos Titãs. Grande disco, mas nem de perto tão importante quanto esta obra prima dos malucos do Fellini.
Sim, malucos.
Quem acompanhou os outros dois textos dessa minha discografia comentada sabe que Cadão, Pappon e cia. foram os primeiros no Brasil (até onde se sabe) a lançarem discos completamente caseiros, feitos com midis de teclados toscos, em 4 canais e com os bastidores descontraídos exercendo papel central no resultado final. Essa já havia sido a tônica de Fellini só Vive Duas Vezes, de 1986. Em 3 Lugares Diferentes, a banda consolida as batidas lo-fi de samba/bossa, misturando-as às declamações de Cadão e às bases pós-punk e punk de Pappon. Levam a estrutura da canção Tabu, de seu álbum anterior, à frente, e o resultado é algo absolutamente imprevisível, ainda que uma evolução criativa previsível em relação a seu passo anterior.
O ápice disso são as canções Teu Inglês e Zum Zum Zum Zazoeira. Dois hits improváveis – Teu Inglês talvez seja, ao lado de Rock Europeu, a canção pela qual a banda é mais lembrada. Mas a fórmula não se desgasta aí, justamente porque não se trata de uma fórmula. Massacres da Coletivização e Valsa de La Revolución*, por exemplo, vão para lugares totalmente diferentes, brincando com o pós-punk-midi e a valsa-midi; tudo lo-fi pra caralho, espontâneo, urgente.
O lugar do “sambinha eletrônico”, ou da “bossa indie” se consolida no disco com força em sua perna final, com a magnífica Rio-Bahia/Lavorare Stanca. A canção começa com os tais bastidores descontraídos, com os rapazes brincando com sua trágica situação – tá dando tudo errado, não tá vendendo nada, mas o importante é que a rapaziada está se divertindo. O mais importante, na verdade, é que eles nos divertem muito no processo.
Apesar dessa “coisa” que alguns chamam de “sambinha” acessar muito a ideia de certo hibridismo que é atribuído à banda, seu principal legado para o rock nacional talvez não seja nem esse. Talvez seja a urgência, a abrangência e a demolição de qualquer limite criativo ao interpretar o rock alternativo em uma concepção claramente brasileira. Eles têm essa marca, e essa paternidade a reivindicar.
Apesar do 3º LP da banda não ser, para mim, seu melhor disco (fico muito dividido, mas tendencioso a destacar o próximo da fila, Amor Louco), talvez seja o mais influente em uma relação direta. É o próprio Pappon que lembra que foi exatamente este o disco da banda celebrado pela “turma de recife” (a geração do Mangue Bit) – há inclusive uma foto por aí dos caras do Nação Zumbi com este LP nas mãos … vi uma vez e nunca mais achei.
Por essas (e muitas) outras, 3 Lugares Diferentes é, até aqui, o trabalho mais sólido de Fellini. Como álbum mesmo; o trabalho tem uma linha, uma narrativa e uma construção única, que lhe rendeu o (quase) prêmio mais improvável e importante que poderiam ter recebido. Fosse nossa crítica um pouco mais corajosa (ontem e hoje), Fellini poderia ter alcançado um status inescapável nesse país. Infelizmente ainda sinto que não alcançaram. Que essas breves linhas e nossa discografia comentada contribua para ampliar a base de fãs dessa banda fundamental.
Abaixo, um print da Edição #31 da Bizz, de fevereiro de 1988 (a Bizz lançava as listas de melhores do ano sempre no início do ano seguinte). É só para vocês verem que eu não estou mentindo. Se puderem, leiam toda a edição. Dá um pouco de saudade do país que quase fomos.
Quase 40 anos depois, continuamos mudando de lugar (até o Pappon se foi pra Alemanha). Mas ainda não conseguimos mudar o lugar.

*Canção que tem uma linda declamação que inclui os versos que intitulam esse texto.



