
Este não é um texto sobre literatura.
Até porque, se fosse, seria um fiasco, já que estou nas primeiras páginas do livro em questão, e pelo que verifiquei antes de começar a escrever, não cheguei ainda nem ao que propõe a sinopse oficial publicada no site da editora, o que fez com que eu levasse um baita spoiler, como se fosse uma pancada no meio das fuças. Deixe estar, diria Paul McCartney.
Este não é um texto sobre literatura, mas poderia ser, já que esta é parente próxima da música, e ambas caminham lado a lado, isso é inegável. Tampouco é um texto sobre poesia, embora – admito – isso aqui esteja ficando bastante poético, principalmente porque estou há dois parágrafos enrolando pra contar sobre o que quero dizer com estas palavras.
A partir daqui, fica ainda mais contraditório, já que revelo que o tal livro, escrito por Alejandro Zambra, chama-se Poeta Chileno. E não é um livro de poesia, mas de prosa, ainda que o mote seja a história de um aspirante a poeta.
Pois bem, e onde entra a música nesta história? Na vida amorosa dos personagens, que dançam, namoram, ouvem discos. Entre eles, o disco que me fez escrever este texto, que poderia ser sobre literatura – e de certo modo é, mas é mais sobre música.
Corazones, clássico álbum do grupo chileno Los Prisioneros, o tal disco, é por si só uma trama digna de livro, novela e o que mais for possível, já que guarda em si uma história real de triângulo amoroso, envolvendo o baixista e vocalista Jorge Gonzalez, o guitarrista Claudio Narea e sua esposa Claudia Carvajal, a quem Gonzalez enviou cartas de amor, logo descobertas por Narea, o que gerou um clima conturbadíssimo na gravação do disco e na continuidade da banda. A isso se sucederam idas e vindas nos relacionamentos e na banda, propostas indecentes e até uma tentativa de suicídio. E no fim, um clássico.
Tirando a parte digna de tablóide, o disco, além das letras que versam sobre amores possíveis e impossíveis, traz uma sonoridade interessantíssima: parcialmente gravado em Los Angeles, sob a batuta do produtor argentino Gustavo Santaolalla, mergulha fundo na mistura do rock oitentista com sons eletrônicos, influenciado especialmente pelo que fazia à epoca o New Order no álbum Technique.
Lançado em 1990, Corazones é um dos álbuns mais vendidos da história do Chile, o que não foi suficiente para manter o grupo em pé, diante de uma situação tão complexa em relação aos sentimentos de seus integrantes. Mais de 35 anos depois, aí está seu legado: uma obra inspirada em uma história real, embalando os relacionamentos de personagens fictícios dentro de uma outra obra.
Este não é um texto sobre literatura, nem sobre poesia, mas se a gente parar para pensar, bem que poderia.
*nota: escrevi este texto originalmente em 2021, mas tenho escutado tanto este disco que achei que valeria a pena trazê-lo de volta.
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