Boa hora para falar de President

Em tempo de eleições, Blood of Your Empire chega como um plano de governo impossível de ignorar

No comício dos mascarados, o ‘Sleeptoken da política’ leva o mistério para as urnas e nos conduz a um voto de confiança. E essa campanha começou muito antes do consistente Blood Of Your Empire. Com “In the Name of the Father” e “Fearless”, o President conquistou eleitores-fãs ávidos por um som que catalisava emoções revoltantes, sob uma roupagem que não sente o menor pudor em abrir as próprias feridas e atirar sentimentos desconfortáveis para todos os lados do púlpito. Peso, sopros hostis de eletrônico e uma porção de gospel chopps não convertidos embalam uma voz que transita entre a suavidade que machuca e o grito que escancara traumas.

Encaramos discussões existenciais que vão dos bancos do Congresso ao das igrejas, balançando a cabeça sob letras de fé e desesperança. Essa é a temperatura geral desse debute, um ato que desafia a capacidade da banda de manter o público interessado em um material completo com a mesma devoção que seus singles misteriosos e arrebatadores.

Este álbum tem o poder de descolorir. À medida que as faixas se sobrepõem, observamos o cinza ganhando destaque, como se a ausência regressiva das cores afunilasse tudo até restar um único matiz, quase imperceptível. Apesar das guitarras furiosas em riffs marcados, a melancolia (bela, claro) aumenta o tom, transformando o canto em protesto e até em um certo inconformismo. Perceba, estamos em guerra antes das armas chegarem e a única forma de lutar é enxergar o cenário com essa serenidade caótica.

“Mercy” talvez não por acaso, seja o ponto de equilíbrio para sintetizar tantas emoções sociais e espirituais. Está ali, repousando como a quinta faixa de dez, mostrando que valeu o caminho até ali e sugerindo que, dali pra frente, pode ficar ainda melhor. Irão descobrir que lágrimas sabem o caminho pra fora dos olhos, mesmo que uma balada seja feita com teclados e elementos eletrônicos mas soa como um solo de guitarra duetado, em “This Will Divide Us”. Ou no rap-groove de “Hate Figure”, que ainda tem pinceladas de Polyphia e Deftones.

President pode ou não viver com as identidades de seus integrantes preservadas, como a Constituição de 1988 ou, num futuro breve, vilipendiadas como num 8 de janeiro. Desse lado, a propaganda eleitoral da banda nos faz acreditar que revoluções existem para se manter conquistas que custaram sangue. Onde tem sangue, tem vida. Tem algo a viver.

E qual a cor do sangue?

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