Como é bom estar vivo

友達がいました (Tomodachi ga imashita) exala emoção e vida. Isso é tão abstrato que é real.

Graças a exu eu estou vivo pra ter ouvido isso. O álbum 友達がいました (Tomodachi ga imashita), LP de estreia da banda japonesa Trooper Salute, é só o que eu precisava em 2026. Um disco inesperadamente denso e emocionante. Isso é tão abstrato que só pode ser concreto.

E eu só posso tentar transmitir pra vocês o tamanho deste álbum contando uma pequena história de meu contato pessoal com ele. Na segunda audição, já entregue pela forma contraditoriamente espontânea através da qual a banda nos apresenta canções muito complexas harmonicamente, eu chorei. E o choro se deu exatamente quando terminava a 5ª canção do disco, ホーリーナイト. A música se encerra com um som de caixinha de música infantil. Me deu um nó na garganta e, imediatamente, corri a um tradutor para entender o que o nome do disco significa. 友達がいました (Tomodachi ga imashita): eu tinha amigos. Olhei a capa do disco, com o menininho caído em seu carrinho, sozinho, com um pirulito na boca.

Porra, sei lá, desabei.

Não dá pra articular mais porra nenhuma depois de uma coisa dessas. “Eu tinha amigos”, galera. “Eu tinha amigos“.

Vocês podem querer nomes. Isso não é indie, shimokita-kei, “math pop”, “art rock” ou qualquer outra merda que alguém tenha inventado pra classificar a música que o quinteto de Nagoya produz. Isso é transcendental. Esse disco não esbarra em tendências. Bebe, é claro, das tradições malucas do indie japonês associadas a um profundo rebuscamento harmônico, “jazzístico”, ou até “bossanovista”. E mescla isso tudo a guitarras impressionantes. Mas isso não significa porra nenhuma também. Não dá pra tentar descrever. Não há descrição possível.

São só esses pequenos signos que a gente cata aqui e ali que ajudam a gente a raciocinar alguma coisa que ultrapasse a mera emoção bruta. A capa, algumas letras, as sensações que certas progressões de acordes produzem … é tudo, enfim, muito inacreditável neste disco. E acho que é inacreditável porque a gente não espera ouvir, em 2026, algo tão … do coração. Arrancado da alma mesmo. De uma beleza quase ingênua. Urgente.

Esse não é só o melhor disco que eu ouvi este ano. É um dos melhores que já ouvi na minha vida.

Meu aniversário tá chegando. Se acharem este CD, posso passar meu endereço por mensagem, ok?

E digo uma última coisa: se vocês sentirem 10% do que eu sinto ouvindo este álbum, todo o meu trabalho (não pago) de curador musical terá valido a pena.