Cidadãos do mundo

O trio mineiro Black Pantera chega ao seu quinto disco, mostrando uma maturidade impressionante, tanto em discurso quanto em musicalidade.

Não que isso parecesse ser uma preocupação dos integrantes do Black Pantera, mas a essa altura da carreira, é certo que eles não precisam provar nada para ninguém.

Livres de qualquer obrigação neste sentido, eles chegam ao quinto disco, Continental, reforçando seu discurso sobre ancestralidade, pertencimento e sobre os sentimentos de um povo que sabe da dificuldade de se conviver numa sociedade que escolhe seus padrões para privilegiar.

O grande lance, desde sempre, mas reforçado em Continental, é a naturalidade como esse discurso adere à musicalidade da banda, e nada soa forçado. Em uma banda que pratica um som pesado, é curioso observar que a guitarra não toma a frente, é apenas um instrumento em seu sentido estrito, quase como uma proteção para a voz de Charles. A afinação da guitarra, aliás, renderia uma extensa matéria em revista especializada, se estas ainda estivessem em evidência. O baixo de Chaene, por sua vez, é certamente a coisa mais impressionante da música brasileira dos últimos anos. A coesão é matida pela bateria de Rodrigo Pancho e é assim que as coisas se conduzem sem sustos.

Também sem sustos é a seleção dos convidados do disco, já que o que fica claro na audição do disco é que nenhum deles precisou se adaptar ao som, apenas foram eles mesmos, quase como integrantes honorários. Sandra Sá, Chico César, Duquesa e Derrick Green parecem extremamente à vontade nas faixas em que participam.

O movimento que se desenhava já nos anteriores Ascensão e Perpétuo, aqui se consolida: a banda passeia por sons menos pesados, sem que para isso precise amenizar seu discurso. Banzo, certamente a que mais tem cara de hit, traz Chico César para dividir o relato sobre o sofrimento do povo preto. Um relato sem amargura, apenas a verdade sendo dita a quem se dispõe a ouvir.

Um outro ponto sobre a identidade do álbum é a inclusão de uma fala do geógrafo brasileiro Milton Santos na faixa-título, fazendo quase como um mapeamento do que se ouve no álbum ao longo de suas 13 faixas: o repúdio à ideia da América Latina como quintal de outros.

O certo é que Continental mantém o nível de seus antecessores e avança um pouco mais, à medida em que a banda conseguiu estar no mainstream sem precisar refinar seu discurso. Isso é muito valioso.

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