
Estamos numa época bem estranha na música. Tem IA compondo música inteira no Suno em trinta segundos e produtores lendários meio que defendendo isso. As playlists de lojas de fast fashion já foram bem melhores. Agora é tudo de plástico e descartável. Tem hit que parece produzido numa fórmula matemática pra bater metas de streaming. O mainstream virou uma pastelaria que só vende um sabor de pastel. Você pode até pedir o que quiser, mas só tem pastel de vento. Música que me parece sem talento para conexões emocionais com ninguém.
Só que, ao mesmo tempo, nos nichos a coisa nunca esteve tão interessante. É como se a nova geração da música estivesse numa plateia e um guru de tecnologia fala sobre AI e todo mundo começa a vaiar. Quanto mais artificial fica o topo das paradas, mais orgânico e genuíno fica tudo que sobrevive fora dele. It Goes On, disco de estreia da banda inglesa Westside Cowboy, é exatamente esse tipo de resistência.
A banda foi formada em 2023 em Manchester, com Jimmy Bradbury e Reuben Haycocks nas guitarras e vocais, Aoife Anson-O’Connell no baixo e vocais, e Paddy Murphy na bateria. It Goes On foi gravado com produção de Loren Humphrey, que também trabalhou com o Geese. O disco tem 11 faixas e uma pegada que mistura indie rock com alt-country, guitarras ardidas com uma melodia de folk e vocais divididos. Soa como um ensaiado numa garagem.
É esse equilíbrio que faz o disco soar, em vários momentos, como uma versão moderna e mais elétrica de Crosby, Stills, Nash & Young. Aquela mistura de harmonias de voz fluídas com uma base mais crua e imperfeita. A faixa como “Kick Stones (The Boys)” abre o disco com uma simplicidade quase ingênua. “Coyote” traz uma guitarra surf mais solta e uma melodia quase sussurrada do punk. O disco fecha com “You Could Have Died There On The Dancefloor”, onde a banda mostra suas próprias imperfeições, deixando claro que não estão atrás de nenhum ideal de perfeição atual, apenas fazendo um som que respira livremente.
O que mais impressiona ouvindo It Goes On é como ele soa despretensioso sem soar descuidado. Não tem cálculo de algoritmo em nenhuma faixa, mas também não tem preguiça. É aquele tipo raro de disco que parece ter nascido de gente tocando junto numa sala, testando o próprio gosto musical em tempo real, até encontrar uma identidade entre o indie britânico e a Americana.
Enquanto o mainstream continua terceirizando emoção pra “ferramentas”, discos como esse me lembram por que a gente ainda vai atrás de música nova. Porque de vez em quando aparece uma banda tocando de verdade, e isso espero que nunca vá morrer.
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