A culpa é sempre de um calvo?

Quais os grandes marcos das últimas décadas? Dá pra saber?

Outro dia mergulhei durante horas no site do crítico italiano Piero Scaruffi (dica do nosso apoiador Marcelo), e voltei à uma hipótese já bastante debatida em nosso finado podcast: a de que a música, nos últimos 20 anos, mais ou menos, perdeu completamente o lastro. E isso não é fruto apenas da desmaterialização da mídia musical, mas do desaparecimento do arquivo, do pensamento, do registro crítico e dos consensos.

O próprio Scaruffi reflete isso, talvez sem nem saber. Me chama atenção que suas listas de “melhores bandas das décadas” só vá até a década de 2000 (daí em diante o crítico nos direciona aos rankings de notas ano a ano, o que é bem diferente) – é inclusive, uma baita lista. Só que, daí em diante, as duas décadas que se seguem são, para Scaruffi, extremamente irregulares. Analisando mais a fundo suas próprias escolhas de escuta, eu diria que as coisas se tornam difusas. Ele próprio se afunda em alguns nichos, perdendo o que havia de mais abrangente, eclético e universal em suas análises de décadas até 2000.

Nós já conhecemos os culpados. O “achatamento” da música promovido pelo modelo do streaming (que enfia todos cada vez mais nos feedback loops de suas customizações algorítmicas), a profusão da produção musical, dos novos “gêneros”, e o fim de qualquer possibilidade de aceso à música física e à sua durabilidade enquanto artefato cultural. Tudo isso nos levou ao inevitável fim do jornalismo e da crítica musicais – a ordem dos fatores não é necessariamente essa, e as coisas são concomitantes e cíclicas, mas deu pra entender, né?

Por mais que o pensamento de Scaruffi seja muito específico (e exigente), qualquer fã da linhagem alternativa que parte do rock colocaria bandas como Xiu Xiu, Animal Collective, TV on The Radio, Fiery Furnaces (entre outras) como algumas das melhores dos 00s. Essa década tem a enorme polêmica de uma farsa chamada Radiohead. Mas Scaruffi, eu, e muitos outros, desafiamos a cantilena, sendo que seria possível, a partir de uma revista que se quisesse séria, reorganizar o consenso da crítica deste período que é, por essas e outras, o início do fim do pensamento crítico e dos consensos em música (mesmo na música alternativa, onde o consenso por si só não pode ser uma camisa de força).

A dissolução das categorias, consensos e diretrizes básicas do pensamento crítico musical se enxergam hoje na “fantonização” do pensamento. O carequinha (the internet’s busiest music nerd), muito mais do que a Pitchfork ou qualquer outro veículo, tem produzido uma horda de fanáticos que tomam suas dicas e avaliações como ordens. O Bruno Leo me atentou para esse processo, e nunca mais consegui “desver”. Todo mundo que conversa sobre música hoje parece guiado pelos maneirismos e critérios de análise (por vezes completamente aleatórios e, no limite, irrelevantes) de Anthony Fantano.

Mas tudo são escolhas. Estamos vendo que os principais veículos de música têm tentado se reinventar. a Pitchfork, por exemplo, parece ter melhorado 300% desde que subiram o paywall (será que estão pagando melhor os colunistas que restaram?). No entanto, todo mundo continua se enfiando na lama.

É Fantano, é streaming, é o fim do caminho.

Existem diversos outros caminhos, mas não vou ficar aqui me repetindo. Meu foco ultimamente tem sido propor soluções. Tenho duas aqui, que vou aprofundar depois: comprem CDs, se possível. E, se vocês não viveram em um buraco nos últimos 20 anos, comentem com a gente sobre seus artistas favoritos do período. Vamos ver se dá pra conversar seriamente sobre isso?