
Tem música boa lançada nos dias de hoje. Aqui mesmo, neste site, listamos opções frescas de material atual dignas de respeito. A roleta continua girando, ainda que a retenção de atenção não seja a mesma que num passado recente e talvez aí esteja o desafio da produção cultural contemporânea de criar novos clássicos: não porque não sejam geniais, mas por não terem à disposição a mesma oferta de contemplação.
Quando “The Game Of Love” saiu há 24 anos, co-escrita pelo vocalista do New Radicals e interpretada pela srta. Branch enquanto Santana pincelava cada estrofe com seu timbre inevitável, as conexões eram, digamos, mais poderosas. Viver o momento não demandava registro imediato e compartilhamento egóico, dava tempo das experiências serem absorvidas por completo e criarem raízes difíceis de serem arrancadas por algoritmos traficantes de dopamina.
Um pouco antes disso, Gregg Alexander tocava o terror no shopping center com “You Get What You Give”, deixando mais um registro profundo naquela geração que respirava a liberdade analógica de criar memórias no data center cerebral.
Agora, ele e Michelle se juntam pra gravar uma versão de The Game Of Love o mais próxima possível da original e a reação é a de sempre: máquina do tempo. Todo mundo levantando os olhos diagonalmente pra cima e capturando memórias instantâneas. Até os mais esquecidos conseguem reproduzir de maneira fotográfica tudo o que viveram pelo simples advento da música e do contexto extinto de existência daquela época de baixa resolução mas altíssimo pertencimento.
Assine nossa Newsletter e receba os textos do nosso site no seu email



