
2024 começou pra mim com uma descoberta daquelas. Basicamente, mais uma banda que “nunca existiu”, e que começou a ser pescada por aí muito recentemente. Muito mesmo. Algumas das primeiras menções à banda Acetone começaram a pipocar pela internet em 2023. O ano seguinte a este foi o momento de capitalizarem em cima disso. O selo New West Records, sabe-se lá como, adquiriu todos os direitos do catálogo da banda e fez uma baita tiragem de todos os álbuns deles em vinil.
Esgotou. Nem todos os discos estavam acessíveis nos streamings até 2025, a não ser o homônimo Acetone, de 1997, e a coletânea 1992-2001, que já havia sido lançada em 2017*. E o que há de tão notável assim, então, nos Acetone, para que qualquer tipo de comoção tenha sido criada em torno da banda? Surpreendentemente, a música. Acetone foi, basicamente, um power trio de Los Angeles “fisgado” pelas majors no inicinho dos anos 90, naquele frenesi da corrida pelo “próximo Nirvana“. Lançaram 3 LPs para Vernon Yard, uma subsidiária da Virgin Records, a partir de um contrato milionário.
Mas a vibe da banda não era nem um pouco comercial. Até tentaram, nos primeiros trabalhos, produzir uma espécie de “loud-quiet-loud” a exemplo daquilo que estava arrebentando nas rádios e na MTV. Só que os rapazes de Los Angeles sempre prezavam mais pela parte “quiet” da equação. Vê-se logo no início de sua carreira, como na magnífica Louise, que os climas e o (assim chamado) softcore eram os motores principais do grupo. Com o fracasso nas tentativas de obter sucesso comercial, a banda viu-se abandonada, até que Neil Young encontrou os rapazes, contratando-os por seu selo, o Vapor. Foi por ele que lançaram seu melhor álbum, o homônimo de 1997. Acetone, o álbum, encapsula perfeitamente o que a banda desenhava desde o início: canções arrastadas, cheias de climas, vocais suaves e um impressionante “engate” entre guitarra e bateria (notem o final da canção Shobud) – remete a Crazy Horse e Big Star, mas com uma energia própria dos 90.
Softcore, afinal.
Pouco antes deste termo começar a ser utilizado, Acetone já traduzia perfeitamente a ideia. E há muitas coisas que eu poderia desenvolver agora, tanto sobre o subgênero quanto sobre Acetone. Mas a verdade é que ainda não conheço suficientemente a banda – ainda envolta em muitos ares de mistério e desconhecimento. É incrível dizer isso, mas em pleno 2026 ainda há coisas que conhecemos muito pouco, e com pouquíssimas fontes. Ainda bem que, em música, basta uma canção para nos transportar a toda uma história – e a canção que fez isso por mim foi a 2ª deste álbum, a impressionante All The Time.
A história de Acetone é uma tragédia. Os rapazes debandaram em 2001, totalmente invisibilizados, e Richie Lee, vocalista e baixista, tirou a própria vida no mesmo ano (provavelmente torturado pelo vício em heroína)**. Seus álbuns ainda não estão organizados devidamente, então linko abaixo o topic do YouTube. E já adianto: assim como acontece com tudo aquilo que pode ser chamado de softcore, Acetone ou vai bater muito, ou não vai bater de modo algum. Em mim bateu profundamente, e fica a sensação de que, se realmente existe essa história (de softcore) a banda é uma das principais proponentes disso a partir dos anos 90 (ao lado das já mais conhecidas Low e Duster).
*A coletânea é linda, mas não recomendo começar por ela. É muito fácil de adquirir uma impressão errada da banda indo direto neste conjunto específico de canções.
**A quantidade assustadora de compositores talentosíssimos do nosso querido underground que tiveram o mesmo destino trágico de Lee deveria ser, desde os anos 90, no mínimo, motivo de profunda preocupação. É importante que falemos mais sobre o assunto, e que cuidemos dos nossos. E, claro, de nós mesmos.



