
Muito já foi dito esta semana, e pouco pode ser dito diante de algo tão devastador como o câncer no cérebro que acabou por levar embora a baixista do L7, Jennifer Finch, aos 59 anos, apenas 5 dias após o anúncio no perfil oficial da musicista a respeito de uma campanha de arrecadação para o tratamento (as consequências de sistemas de saúde precários em países supostamente civilizados).
Mas, diante da impotência que nos é imposta ao lidar com a fatalidade, nos resta falar sobre legado, e aqui escolho falar do impacto do álbum Bricks Are Heavy, de 1992.
Originária de Los Angeles e inicialmente lançando sua estreia pelo selo Epitaph, o L7 se viu dando uma guinada ao mudar sua base para Seattle e ter seu segundo disco produzido por Butch Vig, o incensado produtor por trás do sucesso de Nevermind do Nirvana (e posteriormente fundador e baterista do Garbage).
Bricks Are Heavy se beneficiou do hype inevitável do grunge, aquele estilo quase impossível de se explicar, mas responsável – para além dos cavanhanques e camisas de flanela xadrez – por colocar o rock mais uma vez em evidência e criar alguma identidade nova no segmento em meio aos plurais anos 90.
Mais do que uma banda das minas (o que também foi importante como incentivo), o L7 (à época formado por, além de Jeniffer Finch no baixo, pelas vocalistas e guitarristas Donita Sparks e Suzi Gardner e pela baterista Demetra “Dee” Plakas) teve um papel de destaque no movimento, inclusive no Brasil, que vivia uma espécie de primavera do rock com a chegada da MTV dois anos antes, o que proporcionou a participação da banda no Hollywood Rock, e certamente a formação de muitas bandas por aqui.
Quanto às canções, o que dizer de um disco que abre com uma faixa chamada Wargasm, que sim, fala sobre a energia sexual que as guerras causam em governantes com energia totalmente contrária a esta? Soa atual, porque simplesmente é.
Pretend We’re Dead, o primeiro single e até o hoje maior sucesso do grupo, é certamente a mais acessível, mas não significa que pegue leve no discurso: é mais uma reflexão sobre a apatia que assolou o cidadão comum dos EUA após a era Reagan e governos posteriores.
Com diversos momentos em que as integrantes se revezam nos vocais principais e backings (como no segundo single Monster, em Shitlist e Everglade), Bricks Are Heavy funcionou como um cartão de visita de uma banda que, se não era exatamente uma novidade em comparação com outras pioneiras como Suzy Quatro ou Joan Jett, continuou a construir um legado que rechaçava a ideia de papel secundário das mulheres dentro de um ambiente (ainda hoje) predominantemente masculino, que é o rock. Mesmo que a gente às vezes ainda se depare com clichês do tipo rock de saias, é bem verdade que o L7 foi capaz de dar um chute nessa postura sem noção.
Descanse em paz, Jeniffer Finch – 05/08/1966 – 18/07/2026.



