
24 de junho de 1990. Eu tinha 7 anos. Na garagem da casa dos meus pais, assistia atento às oitavas de final da Copa daquele ano em um domingo de sol. Brasil x Argentina. Clássico absoluto.
Observava muito os adultos, todos em total estado de tensão. E ficava intrigado com o que ouvia deles e do moço da televisão (que, desde aquela época, era o Galvão Bueno). Haviam muitos consensos entre a garagem e a televisão. Todos reclamavam muito do meio campo brasileiro. Em especial de um jogador com nome de anão (Dunga). Falavam muito também de um jogador argentino, super rápido, habilidoso e que corria pra lá e pra cá como uma pulga (bem mais pulga do que a pulga atual). Diziam que esse moço (um tal de Maradona) podia “decidir o jogo a qualquer momento”.
E assim, naquele domingo ensolarado, o jogo transcorria em Turim, na Itália, enquanto o assistíamos no interior do Paraná em uma claustrofóbica garagem. No início parecia que ia sair tudo bem. O Brasil atacava muito. Só depois, já adulto, consegui entender as estatísticas dessa superioridade. Mais de metade da posse de bola, mais de metade de chutes a gol. Uma bola na trave: empolgação geral. Segunda bola na trave: a empolgação já começava a dar lugar a uma tensão indescritível. Sentia isso em todo mundo.
Em uma tragédia que parecia anunciada, já no finalzinho do jogo aconteceu o que todo mundo falava que não podia acontecer: o moço “pulguinha” se desvencilhou do brasileiro anão no meio de campo, saiu correndo desacompanhado e tocou a bola na frente para um outro moço. Este, loiro, cabeludo, até bem bonito (o Caniggia), que driblou o goleiro e rolou a bola para o fundo do gol. 1 a 0 Argentina. Ainda faltava um tempinho pro jogo acabar. Mas ninguém naquela garagem parecia pensar que era possível reverter o resultado. Quando acabou o jogo, o recinto era tomado por uma grande tristeza. Mas havia também muita, mas muita raiva.
36 anos depois, em um puxadinho de cobertura na Zona Leste de BH, já sem meus pais e, eu mesmo, pai de duas, virei criança novamente diante da televisão para mais um jogo de oitavas de final de Copa do Mundo. Outro domingo ensolarado. Dessa vez, contra um adversário supostamente menos assustador. A Noruega. Depois de quase 20 anos nutrindo uma descrença pessoal pela Seleção (no fundo bem realista), fui tomado na Copa de 2026 por um otimismo quase infantil, guiado talvez por uma escrita impositiva: nunca passamos mais de 24 anos sem um título mundial. Era agora!
Todos os dados objetivos, porém, indicavam que fracassaríamos de novo. E todos (na imprensa, nas ruas, onde fosse) repetiam os mesmos consensos: “não temos meio campo”, “não temos laterais”, “se deixar o tal do Ødegaard ditar o ritmo a gente vai ficar sem a bola”, “se deixar o centroavante deles encostar na bola é gol”. E aí começa o jogo. Pênalti perdido, chances brasileiras na cara do gol, péssimas decisões táticas. Já na metade final da peleja, aconteceu o que todo mundo falava que não podia acontecer: o tal do Ødegaard ditou o ritmo, perdemos a marcação na lateral e a bola chegou ao centroavante em duas ocasiões mais limpas. Dois gols. Também de um loiro cabeludo, só que este bem mais feio que o argentino, e com jeitão de troglodita (o Haaland).
Atônito diante de mais uma derrota cantada, eu olhava ao redor. Mas agora não via nem tristeza nem raiva. Era quase uma indiferença.
Porque essa é a conta das derrotas empilhadas. Um descaso cínico. Se em 1990 eu sentia todo mundo meio puto, discutindo fervorosamente os erros para tentar consertá-los em empreendimentos futuros (em um empreendimento que contribuiu, e muito, para o tetracampeonato de 1994), desta vez eu saí de casa no dia seguinte, andei pelas ruas e vi todo mundo sorrindo, correndo, almoçando e conversando como se nada houvesse acontecido. Imaginei todo mundo pensando algo muito bobo e cínico. Do tipo: “perdemos mais uma. Tudo bem, daqui a 4 anos perdemos de novo”. E é isso? Vamos apenas nos acostumar a perder?
Intrigante.
E por um motivo simples. Porque todas as nossas derrotas soam como as da nossa Seleção em 1990 e 2026: profecias autorrealizáveis.
E isso não é apenas no futebol.
Como país, parece que somos sempre como o motorista de um Palio 2001 rodando muito além de sua capacidade. Todo mundo olha pro veículo e sabe que, em algum momento, o motor vai arriar. Todos avisam o motorista: frentistas, mecânicos, amigos, parentes, deus em um culto qualquer. Mas não adianta. O carro vai para a estrada mesmo assim e o motor se funde. A pé na beira da estrada, o motorista parece um pobre coitado que não teve opção de evitar a situação.
Dá pra levar isso pra diversos lugares.
Me lembro até de um clássico recente da literatura econômica nacional, que vai na linha de demonstrar que sempre fazemos de tudo para ir de encontro com a tragédia, apesar de todos os alertas: “Brasil, uma economia que não aprende”, organizado por Paulo Gala e André Roncaglia. O livro narra o abandono das políticas industriais desenvolvimentistas pela adoção do receituário neoliberal de privatizações e financeirização (processo que sempre entrega exatamente o oposto daquilo que promete). A maior das ironias? Paulo Gala, um dos organizadores do belo livro e contumaz crítico da “economia que nunca aprende”, foi economista-chefe do Banco Master.
Este país realmente não aprende. Mas porque será?
Pode ser que seja negação: um desejo psicanalítico de perpetuar o sofrimento evitando olhar para os índices do inconsciente. Pode ser que seja autoestima mesmo: no fundo pensamos não merecer situações de vitória, pois nosso destino já traçado é o do percalço e da dificuldade extrema. Pode ser arrogância: aprender significa reconhecer o erro e trabalhar pela sua supressão em eventos futuros.
Mas pode ser também covardia e oportunismo: é muito mais fácil soltar um “eu avisei” depois do ocorrido do que lutar pela correção oportuna da tragédia iminente. Este parece ser o caso de boa parte dos comentaristas futebolísticos por aí. Todo mundo avisou, todo mundo sabia. Mas todo mundo se aproveitou da situação colocada. A audiência dos programas esportivos explode diante das derrotas da Seleção. Em todas as dimensões, a “indústria do ‘eu avisei’” é bastante lucrativa neste país.
Se temos alguém para se indignar por nós, substituímos a catarse necessária por uma catarse mediada e muito bem remunerada. Assim como deixamos especialistas em política ou economia nos avisarem que algo que eles mesmos incentivam (ainda que dissimuladamente) pode dar merda. E eu sei: você deve estar pensando que não faz sentido cruzar temas que parecem tão díspares.
Mas é que eles só parecem.
Mas é que todas as nossas derrotas soam como as da nossa Seleção em 1990 e 2026: profecias autorrealizáveis.
E se, diante de mais uma profecia autorrealizada, apenas rirmos da situação sem a raiva que uma vez imperou, aí é que as coisas nunca mais vão sair do lugar mesmo.
Nos falta ódio.
E isso não é apenas no futebol*.
Fica aqui mais uma lição dolorosa, de mais uma profecia autorrealizada, pra ver se a gente aprende. Enquanto não lidarmos com todos os nossos traumas, com a raiva necessária, seguiremos maltratando meninos de 7 anos em domingos ensolarados de Copas do Mundo.
Até a hora que voltarmos a ficar putos.
Eu estou. E vocês?
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*Só que no país que mantém o status (cada vez mais ameaçado) de “país do futebol”, ainda é através deste esporte que se pode compreender mais claramente todos os outros problemas. Parece até, aliás, que mesmo aos trancos e barrancos, o futebol segue sendo o “oxigênio cultural” do país. Oscar a gente pode até perder. Posições no PIB global também. Mas Copa do Mundo? Ainda mais 6 consecutivas? Trata-se de um portal para o inferno que pode desencadear longas diatribes analíticas, com o país todo no divã.
Parece que desta vez, finalmente, após as eliminações letárgicas de 2018 e 2022, tem mais gente puta além de mim. E tá sobrando até pro evangelistão nacional (finalmente). Vejamos o que acontece.



