
Um show qualquer é anunciado. Milhares de Reels, posts, Stories, matérias, influenciadores e mídia especializada falam sobre. Aí começa o bingo do pânico do fã de música. Quantos shows na minha cidade? Vai dar tempo de comprar ingresso? E a fila online? Qual será o preço? Será que tem pista VIP e VIP da Premium? Será que estarei vivo em 10 meses? Como que dá pra pagar? Será que tenho o cartão do banco X pra comprar antes?
Essas e outras inúmeras perguntas passam pela cabeça de qualquer fã de música que ama ir em show (principalmente de artista grande). Quando eu era moleque, minha única preocupação era como que eu iria voltar pra casa. Andando ou de carona? Parece que hoje, um show virou praticamente um planejamento das férias que temos 1 vez por ano.
Ao mesmo tempo que muito show tem demanda gigantesca e sempre abre datas extra, alguns artistas acham que todo show será assim. Não à toa, várias turnês estão sendo canceladas e poucos admitem os motivos reais desses cancelamentos. Só as Pussycat Dolls tiveram a coragem de falar a verdade: não vendeu ingresso. O número de bolinhas azuis disponíveis no site da Ticketmaster anda cancelando muita tour. Se não tem venda mínima, esquece.
Antes a gente ia vivendo e acompanhando o crescimento dos artistas de um pequeno clube para uma arena e depois para estádios e headliners em festivais. Hoje parece que o critério de se virar headliner é puro número de big tech. Mas ouvir 3 milhões de vezes em loop um artista numa playlist do Spotify não faz ninguém sair de casa.
Essa megalomania de redes sociais e números de plays e views, faz ser extremamente difícil saber hoje qual é a audiência real de um artista. Quais pessoas que de fato saem de casa e compram um ingresso? Dá pra ter hit no TikTok e zerar na bilheteria. E dá pra ter artista indie que, no lugar certo e com preço certo, esgota toda semana.
O ingresso médio nos EUA em 2026 chegou a US$ 144, e era US$ 82 antes da pandemia. Isso sem contar todos os custos a mais como merch, transporte, estacionamento, alimentação e bebidas dentro do show. O fã que já estava fazendo malabarismo financeiro pra entrar numa pré-venda agora precisa calcular se vai ter dinheiro daqui a três meses pra ir ao show que comprou hoje.
A conta não fecha mais pra quem não é do tamanho que acha que tem. Há sinais claros de que a tolerância do público com preços altos está se esgotando e nature is healing e tá rolando uma correção de rota. Não é crise do show ao vivo, tem muita nuance e outras reflexões que ainda vou fazer aqui. É a conta chegando pra uma parte da indústria com monopólio, que quer tirar até a última gota dos artistas (e do público) e confunde métrica digital com público real, e preço de superestrela com demanda delirante.
Streaming não é fila. Seguidor não é ingresso. Bolinha azul disponível não mente. E as pessoas não são otárias pra sempre.
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