
Li outro dia em um portal brasileiro de música uma dessas coisas que deixam a gente de cabelo em pé: “A Pitchfork surpreendeu ao eleger como o melhor disco de 2025 uma obra que sequer está disponível no Spotify”.
Bom, em primeiro lugar, não deveria ser surpresa, uma vez que, em 2024, a Pitchfork também elegeu como melhor disco do ano uma obra que “sequer está disponível no Spotify”– Diamond Jubilee, de Cindy Lee. Não sei se a autora do texto do tal portal ignorou este fato, ou se apenas acha muito surpreendente mesmo uma obra não estar no Spotify. Aparentemente, desafiar a hegemonia dos plays musicais é algo muito fora da curva, que ultrapassa o valor estético da obra.
Bom, pra mim não é. A ausência dessas duas obras (e já de tantas outras) nos streamings só reforça o seu valor estético, pois exige com que os trabalhos se imponham para além da plataforma onde estão inseridos. E é precisamente isso o que acontece com o brilhante debut do duo Los Thuthanaka. Em agosto do ano passado eu vaticinei que se tratava do melhor álbum gringo do ano até então, e isso só não se manteve no meu balanço final porque caí vítima da psyop Cameron Winter/Geese (contém ironia).
Desta vez, volto aqui pra destacar o retorno dos Los Thuthanaka, novamente fora dos serviços oligopolizados de streaming (uau!). Trata-se do brilhante mini-álbum Wak’a. Com apenas 3 faixas, o trabalho parece, por um lado, uma continuação do LP de 2025. Por outro lado, a obra traz algumas novidades. Elabora de forma mais, digamos, meditativa, as paredes de elementos que marcam tão notadamente o trabalho do duo, como em Ay Kawkinpachasa? (capo-kullawada) (com um belo synth que sustenta quase toda a canção, por trás dos elementos instrumentais mais tipicamente andinos) e como na faixa de abertura, a belíssima Quta (capo-kullawada) – uma das canções mais lindas do ano.
Trata-se apenas de um EP (se é que essa definição ainda cabe), com 3 faixas e um imenso caminho para se percorrer. Dá pra ouvir o trabalho em loop, com os belos climas que sustentam o trabalho. Um trabalho meio urgente, que se soma à repercussão (ainda) grande do LP do duo de 2025, e ao anúncio dos artistas no lineup do Primavera Sound Brasil.
Se você ainda não aderiu à febre selvagem dos Los Thuthanaka, está em boa hora.



