
Falar de underground hoje passa invariavelmente pela imersão em nichos muito específicos. Nichos dentro de nichos, dentro de nichos, muitas vezes “presos” à plataformas específicas – sabemos do “Soundcloud Rap” e suas múltiplas variáveis, do indie “de Bandcamp“, e por aí vai. Às vezes o nicho do nicho torna-se insuficiente para uma banda ou artista, o que produz uma certa “furada de bolha”. É o que acontece com a banda canadense cootie catcher.
A banda foi associada a um “gênero” recém defendido pelos blogueiros Eli Enis e friends&, o “laptop twee“. friends& descreve o rolê todo como “quando uma tradicional canção de twee pop é produzida de uma maneira que parece distintamente pós-hyperpop“. Ou ainda, como música feita por “Zoomers criados por ‘mães Wilco‘” (adorei essa). Eli Enis, em seu artigo no blog Chasing Fridays, incrementa as definições: “e se The Radio Dpt. entregassem um álbum não mixado para a Jane Remover concluir o trabalho?”. As descrições são todas impagáveis, e descrevem um monte de bandas totalmente “perdidas” no espaço virtual – muitas delas no Nina Protocol, que tem sido uma espécie de vitrine para essas bandas de “laptop twee“.
Para quem está boiando totalmente, inclusive sobre o que seria twee pop para começo de conversa, não se preocupem. Na linha dos subgêneros dos subgêneros do rock alternativo o twee pop não é sequer uma unanimidade. Eu mesmo defendo que não se trata, nem de perto, de um gênero. O twee é uma espécie de contexto que gira em torno da coletânea C86, da NME (de 1986), que trazia algumas bandas como The Pastels, Primal Scream e McCarthy (banda de Tim Gane, que depois formou o Stereolab). O que une as bandas da coletânea, e que caracterizaria o twee como gênero, são guitarras “jangly” e uma estética DIY meio inocente, ou despretensiosa. Nada, enfim, que não possa ser usado para descrever o jangle pop por exemplo. É mais um nome para uma imensa lista de outros nomes.
Na prática, se pegarmos todas as referências que passei os últimos três parágrafos costurando, temos uma boa noção de como soa cootie catcher, e seu magnífico último álbum, Something We All Got. O trabalho parece realmente resgatar o som dessa “linhagem clássica” do twee e do jangle e adicionar a elas texturas bem contemporâneas. É como se puxassem The Radio Dpt., ou mesmo atos mais obscuros da década de 00 (como No Paws (No Lions)), e acrescentassem uma mixagem maluca cheia de synths tortos e uma CDJ com scratches – tudo isso produzindo muito ruído que não sabemos de onde está saindo. Já dá pra catar tudo com um dos singles anteriores da banda (presente em seu álbum do ano passado, Shy At First):
Em Something We All Got, cootie catcher avança na fórmula da canção acima, entregando alguns clássicos instantâneos como Straight Drop e Puzzle Pop. O disco é irresistível. Tem três pessoas cantando, um clima absurdamente experimental em transições e camadas, mas o bom e velho indie pop (seja twee, jangle, ou qualquer que seja sua definição preferida) te chacoalhando com canções de raro carisma. E carisma é, sempre, uma das marcas fundamentais de todo o rolê alternativo. É por essas e outras que uma banda nova (e esquisitíssima) do Canadá lança aquele que, pra mim, é o disco mais legal de 2026 até aqui.



