Tudo que vai

O compositor Alvin L faleceu repentinamente no domingo de Páscoa de 2026. Como legado, deixa dezenas de sucessos e um álbum-solo a ser apreciado.

No último domingo de Páscoa, a música brasileira se deparou com a morte repentina do compositor Alvin L, dias depois de ter completado 67 anos, após sofrer uma parada cardíaca. Uma partida discreta, de um artista igualmente discreto.

Compositor de diversos sucessos do Capital Inicial e de parcerias com outros artistas como Frejat, Ira!, Leoni, Leila Pinheiro e Marina Lima (entre eles o grande hit Não Sei Dançar), Alvin fez parte de bandas como Rapazes de Vida Fácil e Brasil Palace. Após iniciar sua parceria com o Capital Inicial, voltou a integrar uma banda, a Sex Beatles, com a qual lançou dois álbuns, Automobilia e Mondo Passionale. Em 1997, lançou seu único disco-solo. Recupero aqui um trecho da resenha que escrevi sobre ele há algum tempo.

Este disco tem um caráter muito especial, e talvez seja muito subestimado, provavelmente porque à época de seu lançamento, em 1997, não fosse tão comum assim no Brasil a modalidade de “disco de compositor”. A partir da segunda década do século atual, o famigerado termo cantautor passou a aparecer por aqui e muitos lançamentos neste sentido traziam as músicas consagradas por outros artistas na versão de quem as compôs.

Alvin L. lançou seu único disco-solo, Alvin, após dois discos com a banda Sex Beatles e várias composições para nomes como Capital Inicial, Frejat, e principalmente Marina Lima, que gravou no seu disco de 1991 o maior sucesso de Alvin, Não Sei Dançar, que aparece aqui numa versão mais bluesy. Aparece também no disco Alguma Prova, gravada por Marina em 2001.

Além destas, Inverno e Alguém Como Eu têm gravações registradas por Dinho Ouro Preto em sua carreira-solo. Curiosamente, nenhuma das músicas gravadas pelo Capital Inicial aparecem no disco, embora sejam inúmeras.

Tudo Que Você Queria Saber Sobre Si Mesmo já havia aparecido em Mondo Passionale, segundo e último álbum da Sex Beatles.

Ao longo do disco, dá pra sacar muitas das referências musicais e literárias de Alvin L., e essa talvez seja a parte mais divertida, a de reconhecer as influências em riffs e frases. É um passeio entre vários estilos, que traz citações a Bowie, T-Rex, Sly & The Family Stone, entre outros.

O disco foi puxado pelo single 24 Dias por Hora, que tem uma ótima letra e já mostra a que veio: o artista não é um cantor virtuoso, mas não faz feio com a voz que tem.

Assumidamente tímido, o compositor declarou à época do lançamento que nunca foi muito sua vontade ser um cantor, ele preferia mesmo compor e tocar guitarra. Talvez por isso ele tenha deixado este único disco como legado e voltado a exercer o ofício de escrever canções para terceiros.

Passados quase 30 anos de seu lançamento, e com a repentina partida de Alvin, a palavra legado ganha ainda mais significado.

Ouça Alvin L: