Polarização

A arquitetura viciada das redes tem ditado como absolutamente tudo é debatido. Essa dinâmica destruiu o pensamento e a crítica, e precisa ser descartada.

Recentemente aconteceram umas duas coisas que me deixaram preocupadíssimo (pra variar).

Em primeiro lugar, a Folha de São Paulo entregando discórdia binária pra alimentar polarização algorítmica. Desta vez, com música. Publicaram uma resenha terrível detonando o álbum novo da Marina Lima. A resenha não é terrível por detonar o álbum. Até porque, isso poderia ser feito com elegância e cacoete de crítica. É terrível porque é mal escrita, mal pensada, cheia de jargões e frases prontas (terá sido IA?). Pouco tempo depois, o mesmo jornaleco lançou uma resenha elogiando o trabalho.

O recurso da polarização já tinha sido utilizado antes com outros temas, inclusive com política. Mais um índice do fim do pensamento. O álbum em si realmente não interessa nessa nova economia social, cultural e política. O que interessa é a morte do objeto, do conteúdo e das categorias (universais, como gêneros, tendências, padrões, generalidades, etc), em detrimento de fragmentos que alimentam determinados pontos de vista simplistas (informações binárias). Só importa que lado você escolhe em um pêndulo que só tem dois polos.

O mesmo mecanismo se repetiu na recente polêmica sobre a banda carioca Vera Fischer Era Clubber. Um vídeo da banda no Cultura Livre viralizou (com trecho de uma apresentação que ninguém deve nem ter visto na íntegra), e a web se dividiu entre os que ridicularizaram a banda, comparando-a àquele famoso esquete de Hermes e Renato (“Também sou Hype”), e os que defenderam a banda a ponto de compará-la aos Os Mutantes (sim, você leu certo … isso aconteceu). No segundo grupo, destacaram-se algumas figuras famosas, como o Lucas da Fresno, que também anda lutando contra o binarismo; entre os que defendem que Fresno sempre foi uma bosta e outro grupo que defende que a banda “se traiu” no caminho. Mais polarização.

Parece não haver outra forma de comunicação. Sobretudo, porque não existe outro meio de comunicação a não ser essas redes que habitamos o dia todo. Eu falo tanto isso na minha outra vida (acadêmica), que esqueço que por aqui talvez eu não tenha expressado minha opinião “final” sobre esse assunto. A web não foi desenhada para nos emancipar. Transformou conhecimento em informação difundida por polos de tensionamento de ideias pré-fabricadas. Isso não vai mudar.

Mas existem outros meios que ainda não utilizamos (ou que deixamos esquecidos em detrimento da lama das redes). Foi também recentemente que Sophia Chablau deu uma longa (e ótima) entrevista para o Scream & Yell, defendendo a crítica musical. Dizendo, inclusive, que ela devia ser mais “pau no cu” (sic). Antes disso, nós precisamos ter uma crítica. E não voltaremos a tê-la enquanto o mecanismo que movimenta as redes é que dita o que deve ou não ser escrito, e como.