
Recentemente voltou a circular um vídeo de David Bowie em que o artista declarava achar extremamente perigoso para um artista satisfazer as expectativas dos outros. A preocupação do cantor parece coerente ao se constatar que ele próprio odiava repetir fórmulas, e nas poucas vezes que o fez, resultou em trabalhos menos inspirados, denotando até nele próprio um cansaço a respeito da própria obra.
Quando um artista morre, um pouco deste poder corre o risco de ser perdido, a cada vez que, ávida por perpetuar algum ganho, a indústria sai em busca de raspas e restos de alguma obra inacabada; O próprio Bowie acabou tendo muitas sobras de produções decartadas sendo reveladas nos últimos dez anos, sem estar por aqui para opinar a respeito.
A polêmica mais recente diz respeito ao lançamento de uma remixagem do álbum Elis, realizada pelo filho da cantora, João Marcello Bôscoli com o engenheiro de som Ricardo Camera, o que causou uma manifestação indignada de Cesar Camargo Mariano, pianista, arranjador e diretor musical do álbum lançado pela cantora em 1973.
João Marcello, por sua vez (com o apoio dos irmãos Pedro Mariano e Maria Rita, filhos de César), rebateu as críticas do padrasto, com argumentos técnicos e familiares, mas o fato é de que o disco foi alterado no sentido em que havia um plano de produção e mixagem, e por mais que se tenha descoberto trilhas de gravação que não havia no lançamento original, elas representam um acréscimo, tornando o álbum não um relançamento, mas uma nova versão.
Frequentemente, estes trabalhos de recuperação são oferecidos como um presente aos fãs. O que reflito aqui é: arte não é prestação de serviço. Pensar em refazer algo visando agradar ao público de certo modo reduz o tamanho do artista.
Talvez o advento (risos) da Inteligência Artificial Generativa tenha trazido a facilidade de transformar suposições em uma ilusão de realidade, mas a gente quer mesmo saber como seria o som de um Led Zeppelin se o Jimmy Page respeitasse o campo harmônico ou como ficaria o Kurt Cobain cantando Legião Urbana (são apenas conjecturas, por favor não se ofenda e também não peça para a IA gerar isso, querido leitor)?
Neste momento você pode me acusar de estar misturando alhos com bugalhos, mas estou na verdade radicalizando para que você seja pelo menos meio termo. Iniciativas como o Let it Be Naked, em que foi consertado um trabalho declaradamente mal feito no passado me parece algo muito válido (mas veja bem, antes de agradar ao público, a ideia aqui foi agradar primeiramente os próprios artistas envolvidos). O caso do disco Elis altera essa noção na medida em que um de seus responsáveis não foi consultado na realização de uma nova versão. Talvez funcionasse se o álbum fosse lançado com um nome que explicitasse o retrabalho. Mas ainda assim, seria uma prestação de serviço.
Em uma declaração recente, a viúva de David Bowie, Iman, revelou que o artista fez um disco para ela. Este álbum, segundo ela, nunca será lançado.



