Uma ópera punk-andina pra chamar de sua

Denso, misterioso e cheio de camadas fascinantes, Los Thuthanaka é um álbum de sons analógicos e eletrônicos fundidos em uma irresistível ópera experimental.

Los Thuthanaka é um duo formado por dois irmãos boliviano-americanos: Elly e Josh. Não haviam chamado muita atenção anteriormente, até lançarem este trabalho denso e experimental. O disco foi lançado apenas em março, e demorou esse tempo todo para que eu conseguisse realmente mergulhar no trabalho, contrariando as expectativas de opiniões rápidas que geralmente se instalam. Ainda bem que eu fiz isso, porque Los Thuthanaka, o debut homônimo do duo, não é um disco fácil de se digerir. Nem de se definir.

Tive, inclusive, que ler e reler o título desse texto para me certificar que estava no caminho certo. Mas acredito que sim. A camada mais exótica deste trabalho, que pode ser um chamariz imediato para muitos, são as influências musicais ancestrais andinas e aymares dos compositores. Isso está ali, certamente. Mas o que mais me chama atenção no disco é a capacidade que o duo apresenta de destacar uma certa universalidade neste padrões regionais/folclóricos. Universalidade que se conecta até com o rock e o punk. Canções como Kullawada “Awila” deixam isso claro, quando os riffs de teclas se mesclam a uma guitarra distorcida afeita ao punk. Salay “Titi Ch’iri Siqititi”, que fecha o álbum, esbarra na cúmbia, reforçando a associação já bem clara que anda sendo feita entre o ritmo tradicional latino e punk rock (haja visto o recente sucesso dos mexicanos do Son Rompe Pera).

Essa é mais ou menos a toada do álbum. Mas tem algo aqui que vai além, e que talvez seja o mais inovador do conjunto; há uma certa tradição da música experimental contemporânea, da colagem de samplers e loops, que o disco acessa de uma forma bem peculiar. Se nos basearmos em clássicos dessa “linhagem”, como Person Pitch (Panda Bear) e Endtroducing (DJ Shadow), Los Thuthanaka contribuem com algo diferente (mais fresco mesmo, talvez). Misturam samplers com teclados originais, guitarra e baixo, e “fundem” baterias eletrônicas com percussões analógicas. Tudo isso em um conjunto muito coeso. Mesmo em Jallalla Ayllu Pahaza Marka Qalaqutu Pakaxa, que traz um único loop do início ao fim, parece haver algo bastante específico na “parede”– é um disco, enfim, cheio de sons muito diferentes, que não se sabe exatamente de onde surgem.

Eu teria que gastar muitas outras páginas de texto para decompor todas as canções, tentando desvendar a origem destes sons tão originais, mas não acho que a tarefa valha a pena. O melhor de Los Thuthanaka é deixar as audições te dominarem totalmente. A imersão é inevitável, e recompensadora. Pelo menos na gringa, eu não sei se há concorrência, até aqui, para melhor álbum do ano.

Bônus: o disco não está nos streamings. Se virem no Bandcamp: