Vamos precisar compor com advogados?

Com apenas 12 notas disponíveis e 400 anos de partitura, é impossível não haver coincidências. Uma crônica sobre o processo contra Olivia Dean e o perigo de transformar acordes em propriedade privada.

Existe uma regra não escrita na música. Se você chegou ao sucesso, mais cedo ou mais tarde alguém vai te processar por plágio. É quase uma cerimônia de passagem. Primeiro vem o hit, depois o Grammy, depois a carta de um advogado. A bola da vez é a Olivia Dean, que tem um dos discos mais celebrados de 2025, The Art of Loving, e levou o prêmio de Artista Revelação no Grammy de 2026. Agora ela está no centro de um processo que acusa “I’ve Seen It” de copiar a melodia de “Just the Two of Us”, clássico do Bill Withers de 1981.

O processo foi aberto pela Mattie Music Group, que cuida do catálogo do Withers. Curiosamente, a Olivia e os coautores Bastian Langebæk e Max Wolfgang nem aparecem entre os réus. Quem está na mira são a Capitol Records, a Universal e as distribuidoras musicais. A acusação diz que as semelhanças são “tão marcantes” que não daria pra ser coincidência, e que “Just the Two of Us” é tão famosa, que os compositores certamente tiveram a oportunidade de ouvir.

Eu até entendo as nuances e realmente as músicas se parecem. Mas existem plágios de verdade, existem samples não creditados e existe quem copie descaradamente. O que me incomoda é essa tentativa cada vez mais comum de tratar sequência de notas e sequência de acordes como se fossem propriedade privada, quase como se uma patente. A música é escrita em partitura há mais ou menos quatrocentos anos. Com apenas 12 notas disponíveis, é matematicamente impossível não existirem coincidências. Alguém precisa avisar os advogados que a música tem uma quantidade finita de ingredientes. É como processar um restaurante por usar arroz e feijão.

A música de hoje é cópia da cópia da cópia. Se você pega uma música que já existe, toca no violão e troca a letra, ninguém vai reconhecer. A diferença é que quem faz sucesso vira alvo. Os casos de plágio têm sido tantos que parece que o sucesso vem com uma carta de intimação. A família do Marvin Gaye, por exemplo, ganhou na justiça contra “Blurred Lines” do Robin Thicke e do Pharrell, e outros casos parecidos vêm aparecendo com acusações extremamente questionáveis, na minha opinião. Cada vitória de quem processa abre um precedente perigoso. Não podemos deixar uma música em tom de Dó maior ou Ré menor, serem patenteadas.

E aí vem a parte que me dá aflição. Daqui a pouco as músicas de AI vão gerar, em segundos, todas as melodias possíveis do mundo. Todas, de uma vez. Aí alguém registra tudo e começa a processar artistas novos por cópia. Seria cômico se não fosse tão plausível. Uma música que ninguém escreveu, nunca foi tocada por ninguém, mas que tem direito de cobrar de quem escreveu depois.

A Olivia Dean provavelmente vai sobreviver a mais esse capítulo, como outros artistas sobreviveram. Só espero que no futuro a gente ainda possa tocar quatro acordes sem precisar de um advogado do lado.


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