
“Quando big techs e algoritmos controlam a narrativa das nossas vidas, quem berra mais alto é rei. O vídeo do Nikolas e do Pavanato sempre vai viajar mais do que o do Porchat e o da Camila Pitanga”
Em que pese achar que vídeos de figuras como Porchat ou Camila Pitanga deveriam “viajar alto”, resolvi abrir o texto com essa citação pois ele se refere ao diagnóstico “da vez” para justificar mais um desastre eleitoral da esquerda. Nem é tanto assim o “da vez” (já que esse discurso também é lançado ao vento desde 2016, com resultados já sujeitos a uma crítica equilibrada), mas ele parece ser dominante neste pós 1º turno de 2026 e, pra variar, está equivocado.
Somando-se ao “a esquerda tem que voltar pras bases” e ao bom e velho “é a economia, estúpido!”, agora enfiamos o pé na fase: “todo mundo só funciona a partir das redes! Temos que dominar as redes!”. Em primeiro lugar, isso é dito desde 2016. E, em certa medida, todo um nicho comunicacional “de esquerda” foi estruturado a partir dessa formulação. O resultado prático disso são alguns influencers de esquerda; personalidades que se elegem e se mantém relevantes usando o mesmo dispositivo dos personagens da direita, com muito discurso e pouquíssima luta prática. Em segundo lugar, qual o custo político dessa operação? Se nada é orgânico na internet, as personalidades de esquerda que mantém certa relevância nas redes estão ali bancadas por quem? E por que?
Talvez Elias Jabbour e Jones Manoel no congresso realmente sejam boas notícias. Os dois qualificaram profundamente o debate político nacional a partir de sua influência nas redes. Mas o primeiro “furou as bolhas” por causa dos famosos debates em mesacasts com figuras da direita. O segundo provavelmente é financiado por alguma ONG estrangeira (ele passou esse recibo aqui e em alguns outros vídeos), embora eu não possa provar e ele evidentemente não admita. Seja como for, o “dilema das redes” no campo da política é o mesmo daquele que vemos em outros setores: estamos aqui travando uma guerra que não foi feita pra gente ganhar.
Empiricamente, até aqueles mais afastados da realidade já perceberam que os algoritmos da big tech vão sempre valorizar certos tipos de conteúdo e que, enquanto formamos um ou dois Jones Manueis, aparecerão 30 Pavanatos e Nikolas Ferreiras para nos infernizar. Estamos travando uma guerra no campo inimigo. Eu não advogo, com isso, o abandono completo das redes. É através delas que criamos, pelo menos, uma ponte direta com a nossa bolha. Mas é importante sabermos que, enquanto nossas redes estão lotadas de gente postando estrelinhas, o seu vizinho de cima e o entregador do iFood estão recebendo conteúdos totalmente diferentes – conteúdos que apenas reforçam seus vieses, já construídos há muito tempo … lembrem-se sempre que também estamos em bolhas, e que também estamos enfiando a cara em confirmação de vieses, o dia todo.
Mas e agora? Qual é a resposta e a saída se não as bases, a economia, a disputa online? As coisas não são excludentes, estúpido! É equilibrar e escolher bem as nossas lutas prioritárias. A “minha” guerra santa contra a big tech, por exemplo, se instala aí porque o meu diagnóstico, há mais de uma década, é a de que fomos invadidos por uma neo colonização estrangeira altamente fomentada pelas redes sociais, que implantaram verdadeiras bombas cognitivas nas mãos, sobretudo, de jovens e idosos – ambos os grupos mais vulneráveis às operações sutis de manipulação fina exercida por essas redes em nossas sensibilidades.
Nossa luta, como tenho assumido com mais força este ano, deve ser contra a burrice. Uma luta contra o desmonte intelectual que reduziu o debate político à argumentos pró, ou contra, determinado conceito – este mesmo, absolutamente massacrado. Um exemplo claro disso está na própria artificialidade da polarização implementada no Brasil. Se você virar a esquina e perguntar à alguém que se considera “de direita” o que é “a direita” do espectro político, ele não saberá te explicar (e isso também funciona com a esquerda). Existem inúmeros vídeos de canaizinhos virais com esse tipo de conteúdo por aí. Não preciso gastar linhas com mais um CQD.
Nossa luta é contra a burrice, contra a cegueira contra os vieses. E, pra isso, precisamos registrar a realidade da forma mais direta e crua o possível. O Brasil é controlado, ao menos desde 2016, por um consórcio jurídico-capitalista transnacional tutelado pelo exército nacional e por uma máquina manipulatória (e de vigilância) gerida pelos EUA. É uma máquina forte demais para ser desmobilizada com uma ou duas lideranças do “polo oposto” que sobrevivam e dependam das mesmas plataformas que garantem o exercício da hegemonia material e ideológica sobre a maior parte da nossa população, controlando seu “polo oficial”, à direita.
Ao invés de nos lançarmos totalmente nas redes, para sermos engolidos novamente, será que não faz sentido voltar a debater em fóruns públicos, redescobrir a necessidade das deliberações offline e encontrar a tal “base” social da qual estamos afastados a partir de um diálogo direto? Até quando será que as ferramentas de opressão serão encaradas como instrumentos para o “equilíbrio” de uma disputa?
Os americanos já estão aprendendo a duras penas que trancafiaram as “pessoas comuns” em um pêndulo político que não resolverá absolutamente nada – apesar de um dos lados ser sempre mais truculento e explícito do que o outro. Eles estão à beira de uma guerra civil que, provavelmente, ainda não foi iniciada porque o instrumento ideológico tem ajudado demais a manter os “servos” dessa espécie de tecnofeudalismo dominante em um estado de letargia bastante grosseiro.
Não quero, com isso, convocar os companheiros às armas, em uma atitude que, certamente, pode ser vítima da censura da tech americana. Só estou os convocando, inicialmente, a uma guerra contra o pensamento pronto (instalado em qualquer um dos polos), e contra o processo irrefreável de emburrecimento que nos foi imposto. Depois disso, podemos debater, a sério, as teses que podem refundar nossa república com bases efetivamente populares.
À esquerda sempre (e cada vez mais).
Não prego “resistência” ou “amor” para vencermos o fascismo. Prego crítica, inteligência e estratégia. Eu sei que não há resposta pronta para tudo, mas sem encarar estes elementos, aí realmente não temos nenhuma outra saída.



