Vale Nada

Como a ideia de "Brain rot" pode nos ajudar a compreender o fenômeno grosseiro do remake da novela Vale Tudo – e outras cositas.

Em 2024 o dicionário Oxford nomeou “Brain rot” como palavra do ano. Eles fazem isso todos os anos: observam termos que têm sido populares em buscas, debates públicos, etc, e elegem um deles por período. Já foi “emergência climática”, “pós verdade”, e por aí vai.

Segundo o dicionário, este termo do ano definiria o estado de deterioração mental promovido pelo consumo excessivo de lixo dessa nossa web “bostificada” (o famoso “Enshittification“, de Cory Doctorow*). Mas a real é que esse termo já é utilizado nos recônditos profundos da internet há algum tempo para se referir a uma espécie de “categoria memética” que já ultrapassou há muito a razoabilidade, e só vê sentido em acessar o completamente bizarro, grosseiro e sem noção. Seja como for, o termo teve um pico de menções ano passado, e isso não passou despercebido pelo grande capital.

Este ano, a WGSN, a maior autoridade (reconhecida) na previsão de tendências (eles é quem definem “cor do ano”, e esse tipo de coisa), mencionou o termo “Brain rot” em seu relatório de 2025 para marcas brasileiras. Mas, claro, distorcendo o sentido crítico da entrada do termo no dicionário de Oxford. Como “oportunidade de mercado”, o “Brain rot” seria uma “categoria de conteúdo e publicidade, feita para distrair da realidade e não se levar a sério”. Isso são palavras do próprio manual, vocês nem precisam duvidar de mim:

Acontece que, pra mim, é exatamente isso que a Globo colocou em prática com o (suposto**) remake da novela Vale Tudo. A novela não apresentou falhas grosseiras no “plot” apenas na reta final, como algumas pessoas estão pensando. Ela fez isso do início ao fim: abandonou linhas narrativas, inserindo outras do mais absolutamente nada (sem nenhuma consequência), distorceu completamente a natureza de quase todos os personagens originais, destruiu até mesmo o mais importante, que era o conceito crítico da obra, transformando tudo em uma enorme gosma disforme.

A maior parte das pessoas ainda insiste em acreditar que isso tudo foi incompetência de Manuela Dias (a roteirista chefe do remake). Mas eu posso atestar, com mais de uma década de experiência em dramaturgia audiovisual (inclusive em projetos em coprodução com a Globo), que nenhum roteirista profissional escreve aquele tanto de asneira, com tantas incongruências graves, sem saber o que está fazendo. O que me leva a concluir que foi tudo deliberado. Desde o início.

Não para funcionar na lógica do “fale mal, mas fale de mim”, dado que a repercussão negativa da novela superou (em muito) as menções positivas nas redes sociais. Mas para operar no nível do absurdo: é tudo tão grosseiro, tão sem nexo, que o engajamento advém exatamente daí. É isso o que vimos nos últimos dias da novela, passeando pela web: pessoas tentando “consertar” os “plots” e/ou criando teorias mirabolantes a respeito da conclusão principal da trama; outras tantas indignadas com a suposta falta de respeito do remake em relação à novela original, etc, etc.

Vimos de tudo e, no final, a novela não saiu da boca do povo. A estratégia funcionou. O “Brain rot“, repaginado como estratégia de fragmentação narrativa e produção de bobagens absurdas, finalmente venceu – o que me lembra demais a máxima do Bandido da Luz Vermelha de Sganzerla, proferida pelo brilhante Paulo Villaça (que inclusive integra o elenco da Vale Tudo de 1988, por coincidência): “Quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba“. Só que agora quem esculhamba não é o bandido marginal. É a própria estrutura do poder oficial da república, através de sua grande mídia. Nada mais “Brain rot” do que isso. “Brain rot” corporativo***.

Se minha teoria parecer absurda demais para vocês, lembrem-se do absurdo que foram os últimos episódios da novela. Olhem também ao redor, para a quantidade de lixo que vocês viram na web só hoje. Lembrem de Taylor Swift e suas 38 versões “diferentes” de seu último álbum – aqui cabe um grandessíssimo et cetera.

Uma das principais estratégias da grande indústria hoje, big tech à frente, parece ser justamente abraçar o inevitável derretimento cerebral: floodar os feeds com cada vez mais lixo, cada vez mais absurdo e irresistível – ao menos do ponto de vista da inevitabilidade da tragédia. Porque, ao fim e ao cabo, tudo isso funciona como aquele terrível acidente de carro na beira da estrada; todo mundo sabe que há pessoas mortas, ou sangrando, ou convalescendo no local. Mas ninguém consegue desviar o olhar da cena.

*Já falei por aqui, neste texto, do conceito de Enshittification, de Cory Doctorow.

**Há quem tenha teorizado que não é possível sequer chamar esta versão da novela Vale Tudo de “remake“, dada a quantidade de distorções em relação às ideias originais de Gilberto Braga e cia. Há quem diga, inclusive, que não se trata nem de novela aquilo que vimos nos últimos (quase) 200 dias.

***Isso tudo vem com o bônus de reforçar um projeto de sociedade baseado na fragmentação e na hiper atomização dos indivíduos, isolados em bolhas alienantes e sem nenhuma perspectiva de vislumbre de conceitos de totalidade. Destruir o conceito daquilo que entendíamos por dramaturgia, com a contação consequente de histórias, com começo-meio-fim e estruturas coerentes, é parte deste processo todo.