Uma nova era

Isso parece impossível, mas é importante demais: como registrar de forma acertada o impacto cultural de álbuns e artistas através de um processo crítico, aberto e falibilista?

Que nota você dá para o Silêncio no Estúdio?

Vocês já devem saber, mas não custa reforçar. A Pitchfork foi de paywall.

Em termos gerais isso é sempre um transtorno enorme. Agora vamos ter que recorrer a sites escusos (que mudam sempre) pra poder contornar o bloqueio. Tem-se a sensação de que a informação fica “trancada”, etc etc. Mas, do jeito que anda a web (e eu não me canso de falar sobre isso), a iniciativa não me parece tão absurda. A web está toda trancada, e o preço por andarmos de graça pelas redes sociais e ferramentas de busca é, mais do que nossos hábitos (há muito tempo já hackeados), nossa cognição. Sim, cognição. O advento criminoso das LLMs não deixa mais dúvidas de que o pensamento humano e a saúde mental são as últimas fronteiras a serem invadidas pelo capitalismo tardio aceleracionista.

Mas nem é só por isso tudo que a Pitchfork decidiu aderir a um programa de assinaturas. A justificativa da decisão é quase que inteiramente editorial (nós sabemos que existe um componente econômico nisso, mas deixa pra lá). Acreditando no valor de suas resenhas críticas, há mais de 30 anos pontuando álbuns e buscando produzir uma compreensão histórica do impacto cultural de artistas (e álbuns), a revista resolve “abrir” este processo a uma comunidade. Os objetivos me parecem muito claros. Trata-se de tentar corrigir distorções com uma rapidez maior.

Às vezes existem distorções completamente despropositadas. Como a do review original do Discovery, do Daft Punk (um sonoro e triste 6.4). Em um artigo de 2021 a revista resolveu publicar uma lista de reviews com revisão de notas, e a justificativa de quem transformou o 6.4 deste álbum em 10 foi contundente: “se notas são feitas para indicar a longevidade ou o impacto, o review original é invalidado pela repercussão histórica”. Impecável a explicação. No entanto, o review original segue no ar, para o erro ser consultado – e agora ele está sujeito à confrontação por parte do próprio público assinante.

O problema aí é que os reviews são individuais, geralmente escritos no calor do momento, e impacto é algo que só se mede com o passar do tempo e/ou com a adesão de uma comunidade qualificada. Não é de praxe, mas pode acontecer de, no curso de um ano, por exemplo, a rota “se corrigir” para a revista. Vimos isso ano passado com o álbum choke enough, da Oklou. O disco foi recebido de forma morna, com um review de nota 8.0, sem entrar na seção Best New Music da revista. Apesar disso, ele foi celebrado por inúmeras outras publicações ao longo do ano, e ganhou um verdadeiro status de “obsessão” perante parte do público, que verdadeiramente abraçou a obra. Em tempo, a Pitchfork “preservou” o disco, colocando-o em 4º lugar em sua lista de melhores de 2025 (atrás apenas de Los Thuthanaka, Dijon e Cameron Winter). Justiça tardia ou confissão de culpa?

Seja como for, a rota foi corrigida antes que um grande álbum fosse injustiçado. Talvez nem fosse para tanto (um 4º lugar). Mas choke enough, assim como outras centenas de álbuns historicamente escanteados pelo site, merecia, no mínimo, o Best New Music e uma resenha com notinha melhor. “Abrir” o site para os assinantes não pretende necessariamente corrigir esses problemas definitivamente, mas ajudará a manter o processo mais coerente. E a coisa funcionará assim: por 5 dólares mensais, você terá acesso ilimitado à todas as resenhas escritas, com a possibilidade de dar suas próprias notas e de escrever comentários (como se fossem respostas aos reviews oficiais da revista). Todo disco que tiver mais de 5 entradas de assinantes registradas já terá uma média (tipo um “user score”).

Ao final do ano saberemos quais álbuns foram mais cotados pela equipe editorial profissional do site, e quais fizeram mais sucesso entre a comunidade de assinantes. É evidente que a qualidade das avaliações dos assinantes depende da qualificação desta comunidade. Mas, tendo em vista a qualidade (inegável, ainda que muitas vezes subestimada) da revista, é de se imaginar que quem vá assinar se comprometa a emitir avaliações sérias sobre as notas oficiais da revista. A ver se irá funcionar. Essa é uma metodologia que alguns sites (como o Album Of The Year e o Metacritic) já colocam em prática (ranking de crítica e ranking de usuários), e geralmente consegue produzir um retrato fiel da relevância geral das obras avaliadas.

Isso tudo me parece muito interessante. É evidente que é foda elitizar, e excluir boa parte dos que não conseguirão pagar a assinatura do processo (inclusive, e muito provavelmente, euzinho). Mas, dado o atual estado de coisas, não vejo outra saída mais digna. Com o regime de monetização das empresas da web atingindo o estado trágico que atingiu, e com a IA agora destruindo tudo, precisamos valorizar ainda mais toda e qualquer iniciativa que leve a redação, a crítica e o pensamento à sério. Isso inclui, evidentemente, este nosso site. Que é aberto a conversas diretas com os assinantes, que participam de debates fundamentais para “medirmos a temperatura” de cada ano. Claro que temos uma comunidade muito menor do que a Pitchfork. Ainda assim, é só por causa dela que existimos, e nos dignificamos a, semanalmente, trazer reflexões como estas aqui para vocês.

A Pitchfork entra em uma nova era de sua história. E não está sozinha. Me parece que todo mundo que pensa um pouquinho já percebeu que estamos fudidos, e que se não inaugurarmos “novas eras” para tudo aquilo que prezamos, iremos literalmente começar a perder as nossas paixões para automações involuntárias e indesejadas.

Vamos pra cima deles! Das formas mais criativas (e dignas) que conseguirmos.