
Em que pesem minhas ressalvas em relação ao atual estado da crítica musical gringa, às vezes ela acerta. São da Mojo as palavras que descrevem de uma forma assustadoramente certeira este Humanhood, disco novo da artista canadense Tamara Lindeman à frente da banda The Weather Station: “folk-encontra-jazz-encontra-1980s-Pretenders paralelo a 8½ de Fellini ou This Is Hardcore do Pulp”.
Eu ainda diria mais. O som que a banda concatenou com excelência a partir do grande disco Ignorance, de 2021 (na minha lista de melhores daquele ano), e que leva à frente agora, me soa como algo que pode ser chamado de “smooth-indie”. Belos arranjos pontuam a performance vocal minimalista de Tamara, em um conjunto também minimalista e muito sofisticado. Ora o piano conduz, ora uma flauta, ora um saxofone rítmico; tudo é perfeitamente alternado e amarrado com um senso de harmonia que, por não se alinhar de imediato a nada em específico, soa extremamente singular e contemporâneo.
O início do álbum é avassalador. Depois do interlúdio inicial, Descent, segue-se a canção Neon Signs. Uma porrada. Ela evolui progressivamente a partir de um beat eletrônico suave e segue muito reta, mas com os elementos harmônicos se alternando e produzindo as tensões necessárias. Na sequência temos Mirror, outro destaque absoluto e que talvez seja a canção mais rítmica do álbum. Tem um “batidão” de bateria (algo entre Suzanne Vega e Fiona Apple, talvez?), que conduz a música num pulso admirável, sustentando uma bela estrutura. Ainda na sequência, é impossível não falar de Window, o hit óbvio, mas não tão óbvio assim. A canção começa com o (irresistível) refrão e, em menos de 3 minutos, cria o loop mental necessário para nos enfiar na obra de cabeça: “My heart is racing, like a window opens, somewhere to let me out“.
Depois de uma sequência inicial arrebatadora, é natural que o álbum se “assente” um pouco. Body Moves mantém a energia do álbum lá em cima, mas ele começa a diminuir o ritmo a partir de Ribbon. É aqui que a obra se divide praticamente em duas partes. Depois do início mais enérgico, são os climas claramente introspectivos que tomam lugar. De início pensei se tratar de um problema de ritmo. Mas, conforme as audições se acumularam, percebi que essa era mesmo a proposta. A de um disco que faz nitidamente um movimento, das dores externas às internas (mais silenciosas). E é já em Ribbon que a artista anuncia a mudança de tom. Ela diz que sua dor é ordinária (e nossas dores singulares de fato são); “I’m just like anybody“, ela canta. Paradoxalmente, ela assume suas dores singulares exatamente a partir de sua relação com o externo. É esse ambiente lírico, em canções mais etéreas e soturnas, que marca toda a segunda metade do álbum. Lonely e Sewing são destaques aqui. Esta última fechando o disco de forma intimista e reflexiva.
No clima geral, Humanhood parece representar um processo de cura para Tamara Lindeman. Que, diga-se de passagem, tem uma história muito interessante. Lançada à fama como atriz infantil (sob o nome Tamara Hope), a artista passou por filmes bobos, como obras da Disney, à trabalhos mais consagrados, como The Deep End, ao lado de Tilda Swinton. Eu não assisti os filmes de Tamara, mas é possível afirmar, acompanhando as entrevistas da artista que, em sua nova persona como band leader, o sucesso também veio com muitos percalços, e com um sentimento sublinhado de solidão. The Weather Station sempre foi um projeto menor na cena, até o recente sucesso de crítica do brilhante Ignorance. Esta alavanca, ao invés de abraçar a artista, a levou a um estado ainda mais complexo de reclusão, que culmina em Humanhood, essa obra tão linda, mas tão torturada.
É um trabalho onde, muitas vezes, o conjunto de dores da artista é exposto, literal e metaforicamente. Tanto em Window quanto em Lonely, por exemplo, ela chega a falar em “physical pain“. São as dores do mundo, e as dores internas de Tamara Lindeman (físicas ou psíquicas), que tornam esse disco tão denso e enigmático. Mas nunca depressivo, sentimentaloide ou gratuito. É sobre humanidade. E é lindo pra caralho.
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