
DJ Ramon Sucesso não é mais novidade. Começou a viralizar em 2021, com vídeos em que tocava sua controladora com o celular balançando em cima das caixas de som (numa adaptação muito maluca da sensação de uma espécie de baile funk – um baile caseiro e virtual). De lá pra cá, ganhou notoriedade internacional, com resenhas na tão falada Pitchfork, e lançou agora seu segundo disco em vinil. Para um público majoritariamente americano e europeu, diga-se.
O que é novidade é seu som, e seu processo de produção. Como o artista detalha nessa excelente entrevista, ele costura uma miscelânea de samplers, beats originais e intervenções vocais em um conjunto impressionante, que tem na repetição o seu trunfo definitivo. Essa repetição nos afasta muito dos parâmetros do funk atual, mesmo em suas manifestações mais radicais, como o mandelão. O que Sucesso produz é uma espécie de novo gênero mesmo (pós-funk?): um agregado de beats sujos, pausas dramáticas, repetições intermináveis e loops inesperados. Ele adaptou a ideia de uma bolha d’água (de efeitos que usou pra criar os beats) para adotar o nome “beat bolha“, após seus seguidores começarem a chamá-lo de “o cara do beat bolha“. Nas tags que acompanham o lançamento no Bandcamp, temos: experimental, afrofuturism, beat bolha, baile funk. Estamos no terreno da invenção.
O que Sucesso faz eu realmente nunca ouvi antes. Por vezes o resultado dos beats saturados (como no mandelão), em loops frenéticos, nos lembra algum tipo de electro. Às vezes, tudo soa como um house ambient. As coisas se modificam e se moldam de acordo com os climas específicos que transcorrem nas longas imersões que Ramon produz. Talvez seja daí que o artista tira os nomes das canções: Rompendo o Espaço-Tempo/Distorcendo o Universo. Aliás, o disco traz apenas duas faixas (uma para cada lado do LP), o que me remete às experiências malucas do Kraftwerk, onde cada lado do bolachão podia ter apenas uma (ou duas) faixas gigantescas – sim, lembrem-se do Lado B de Autobahn. Sucesso sabe que uma faixa de 16 minutos precisa de climas inesperados (e muitas transições loucas) para funcionar. Um elemento do “ao vivo” de sua performance frenética na controladora. Dos pequenos vídeos para Instagram e Twitter, ele expande sua visão em faixas que parecem intermináveis mas que, ao mesmo tempo, transcorrem rapidamente para o ouvinte, como se fossem hits de 3 minutos. Tem como distorcer melhor o Espaço-Tempo?
Com recursos muito simples, mas geniais, o artista nos faz conseguir ouvir, por exemplo, intermináveis minutos de “pica, pica, pica (ad infinutum)“, “senta na pica, na pica, na pica (ad infinutum)“, de forma atônita e atenta. O que o artista propõe não é um mero pastiche do funk, mas um exercício formal extremamente sofisticado. Ramon parece até esvaziar os sentidos sexualmente explícitos dos clichês do funk. Tudo aqui é apenas matéria prima para o efeito hipnótico de seus loops, transições e quebras. As palavras perdem o sentido. Ramon distorce o universo. O do funk. E o dos ouvintes, na catarse que eles acessam ao dar esse play (especialmente desavisados).
Se por um lado Sucesso repete neste disco novo a mesma fórmula de seu 1º LP, de 2023, por outro ele dá um passinho além. Radicaliza em pequenos detalhes e enfia o pé em algo que parece, de fato, ser inovador. Se não tanto, ao menos um respiro inusitado, mesmo dentro do universo hiper criativo e inventivo do funk brasileiro contemporâneo. A Pitchfork deu uma vergonhosa nota 8 para este álbum. Pra mim tá prá lá de 9. Ramon Sucesso é absolutamente genial.



